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Na Mira do Júri: Retiro Corporativo

A série Na Mira do Júri: Retiro Corporativo constrói, por meio do humor, um retrato preciso das dinâmicas humanas em grupo. O cenário do retiro corporativo, aparentemente leve e descontraído, revela algo mais profundo: o modo como o sujeito se reorganiza diante do olhar do outro. Ao longo dos episódios, percebe-se que não se trata apenas de integração, mas de adaptação. Cada participante, de forma mais ou menos evidente, ajusta sua maneira de falar, agir e até sentir para corresponder a uma expectativa coletiva. O que está em jogo não é somente convivência, mas pertencimento. E, muitas vezes, esse pertencimento cobra um preço silencioso: a redução da singularidade. O riso, elemento central da série, merece atenção. Ele surge como resposta ao desconforto, funcionando como uma espécie de alívio diante de situações que, se levadas a sério, revelariam tensões difíceis de sustentar. Em ambientes corporativos, isso se repete com frequência. Piadas em momentos inadequados, risos compartilh...

Freud: fantasia como realização de desejo, loucura como ruptura com o real

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Ao nos aproximarmos do pensamento de Sigmund Freud , encontramos uma formulação decisiva para compreender a diferença entre fantasia e loucura. Freud desloca a questão para o campo do desejo, mostrando que a vida psíquica não se organiza apenas pela razão, mas por forças inconscientes que buscam expressão. A fantasia, nesse contexto, não é um erro da mente, mas uma construção necessária. Ela funciona como um espaço onde desejos encontram forma, mesmo quando não podem ser realizados na realidade. Em O Futuro de uma Ilusão , Freud afirma: “... eine Illusion ist eine Erfüllung der ältesten, stärksten und dringendsten Wünsche der Menschheit.” “Uma ilusão é a realização dos desejos mais antigos, mais fortes e mais urgentes da humanidade.” Essa afirmação permite compreender que a fantasia não surge ao acaso. Ela responde a uma falta, a um desejo que insiste. Quando alguém imagina reconhecimento, amor ou sucesso, não está apenas “inventando”, mas tentando dar forma a algo que, intername...

Aristóteles: fantasia como ponte, loucura como ruptura

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Ao avançarmos para o pensamento de Aristóteles , encontramos uma elaboração mais sistemática e, ao mesmo tempo, mais sóbria sobre fantasia e loucura. Diferente de Platão, Aristóteles não atribui à loucura um valor elevado ou divino. Sua preocupação está em compreender como a mente opera, distinguindo com precisão aquilo que pertence ao funcionamento regular da psique e aquilo que representa sua desorganização. A fantasia, ou phantasia , ocupa um lugar central nesse sistema. Em sua obra De Anima , Aristóteles afirma: «τῆς φαντασίας κίνησις ἐστὶν ὑπὸ τῆς αἰσθήσεως γιγνομένη» “A fantasia é um movimento produzido pela percepção.” Essa definição é decisiva. A fantasia não é uma fuga da realidade, mas uma continuidade dela. Trata-se da capacidade de manter, reorganizar e transformar as impressões sensoriais mesmo na ausência do objeto. Em termos simples, é aquilo que permite ao sujeito imaginar uma cena, recordar um rosto ou antecipar uma situação. Um exemplo prático ajuda a esclarece...

FANTASIAS OU LOUCURA? A DIMENSÃO DO IMAGINÁRIO NA OBRA DE ERIK ERIKSON

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Fantasies or Madness? The Dimension of the Imaginary in the Work of Erik Erikson RESUMO Este artigo examina a relação entre fantasia e psicopatologia na obra do psicanalista Erik H. Erikson, problematizando a distinção entre processos imaginativos criativos e manifestações de desintegração psíquica. A partir da análise de conceitos centrais como identidade, crise, ritualização e jogo, demonstra-se que Erikson propõe uma compreensão dialética na qual a fantasia não se opõe à realidade, mas constitui um espaço privilegiado para a elaboração de conflitos e a antecipação de possibilidades futuras. A pesquisa fundamenta-se na análise de textos originais do autor, incluindo Infância e Sociedade, Identidade, Juventude e Crise, Toys and Reasons e Insight and Responsibility, articulando tais contribuições com o contexto mais amplo da teoria psicossocial. Conclui-se que, para Erikson, a linha divisória entre a imaginação saudável e a desorganização psicótica não reside na presença ou ausência da...

Desenvolvimento psicossocial em Erik Erikson

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  O desenvolvimento psicossocial proposto por Erik Erikson compreende a vida como um processo contínuo de construção da identidade, no qual cada fase apresenta um conflito central que precisa ser elaborado. Esses conflitos não são obstáculos a serem evitados, mas experiências fundamentais que estruturam a forma como o sujeito se percebe e se relaciona com o mundo. Ao longo da vida, o indivíduo atravessa diferentes momentos em que precisa responder, de maneira singular, às exigências internas e externas, constituindo sua história psíquica. Um dos conceitos centrais é o de crise psicossocial. Cada etapa do desenvolvimento traz uma tensão entre dois polos, como confiança e desconfiança, autonomia e dúvida, identidade e confusão. Essas crises não indicam ruptura, mas movimento. São pontos de passagem que exigem posicionamento. A forma como cada pessoa atravessa essas experiências não depende apenas do ambiente, mas também de como ela significa o que vive. É nesse processo que se estru...

Egossintônico e Egodistônico, o que isso revela sobre você?

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Alguns comportamentos incomodam profundamente, enquanto outros, mesmo trazendo consequências negativas, parecem naturais e até justificáveis. Essa diferença pode ser compreendida a partir de dois conceitos fundamentais: o egossintônico e o egodistônico. Mais do que rótulos técnicos, eles ajudam a revelar como cada pessoa se relaciona consigo mesma. Um funcionamento egossintônico é aquele que está em sintonia com a forma como o indivíduo se percebe. Mesmo que determinado comportamento cause problemas, ele não gera conflito interno significativo, pois faz sentido dentro da própria narrativa pessoal. É o caso de alguém extremamente perfeccionista que enxerga esse traço como qualidade indispensável, ou de uma pessoa que evita vínculos e entende isso como sinal de autonomia. Nesses casos, não há estranhamento, mas coerência interna. Já o egodistônico aparece quando há um desalinhamento entre aquilo que a pessoa vive e aquilo que reconhece como sendo parte de si. Surge um incômodo, uma sen...

Fantasia ou loucura, onde está a diferença?

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A distinção entre fantasia e loucura atravessa a história do pensamento e da literatura. Em muitos momentos, aquilo que parece desvio revela, na verdade, uma tentativa de dar forma ao que não encontra lugar imediato na realidade. Fantasiar não é um erro da mente, mas uma de suas operações mais fundamentais. É por meio dela que o sujeito organiza o desejo, constrói narrativas e sustenta, ainda que de forma provisória, um sentido para a própria existência. A fantasia implica uma criação que mantém algum vínculo com o mundo compartilhado. Mesmo quando intensa, ela preserva a possibilidade de retorno. Já aquilo que se convencionou chamar de loucura envolve uma ruptura mais radical, onde a experiência interna deixa de dialogar com o outro e passa a se sustentar como verdade absoluta. A diferença, portanto, não está no conteúdo do pensamento, mas na possibilidade de circulação, de dúvida e de interlocução. A literatura oferece exemplos preciosos dessa fronteira. Em Dom Quixote , de Miguel ...

TDAH pode surgir depois de um estado melancólico?

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  É bastante comum que, após um período de abatimento mais profundo, surjam dificuldades de atenção, organização e memória. Nesse momento, muitas pessoas passam a se perguntar se desenvolveram TDAH . No entanto, essa associação precisa ser feita com cautela. Em muitos casos, não se trata do surgimento de um transtorno, mas de uma mudança no funcionamento psíquico decorrente de um estado melancólico. O TDAH, de modo geral, acompanha a pessoa desde a infância, ainda que nem sempre tenha sido identificado ou nomeado naquele período. Ele se manifesta como um padrão relativamente estável de dificuldade em sustentar a atenção, organizar tarefas, gerenciar o tempo ou conter impulsos, independentemente do contexto emocional. Por outro lado, quando alguém passa por um estado melancólico, ocorre uma redução significativa da energia psíquica, o que impacta diretamente a capacidade de investir nas atividades do cotidiano. Não é apenas uma questão de foco, mas de interesse, de sentido e de envo...

Entre o chão e a linguagem: o conflito social em O Livro das Ignorãças de Manoel de Barros

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  Há livros que não se limitam a ser lidos. Eles deslocam o leitor. O Livro das Ignorãças pertence a esse território. Aqui, o poeta rompe com a lógica do útil, do produtivo e do reconhecido socialmente. Ele se aproxima do que é desprezado, esquecido, pequeno. E é justamente nesse gesto que emerge um conflito profundo, não apenas social, mas também subjetivo. O mundo contemporâneo valoriza o desempenho, a clareza, o saber técnico. Manoel de Barros caminha na direção oposta. Ele escreve: “O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.” Esse “transver” é um movimento que ultrapassa o visível e o normativo. Em termos subjetivos, trata-se de uma recusa em se submeter integralmente à ordem dominante do sentido. Há um deslocamento daquilo que seria esperado como “correto” para um território mais livre, mais primitivo, mais próximo da infância. O conflito social: entre o útil e o inútil O poeta frequentemente exalta aquilo que a sociedade descarta. Ele diz: “Tenho abundância de s...

Cognição Social: como interpretamos o mundo e as pessoas

A vida cotidiana é atravessada por interpretações constantes. Em poucos segundos formamos impressões sobre alguém que acabou de chegar, avaliamos intenções, inferimos motivos e decidimos como reagir. Esse processo acontece de forma tão natural que raramente percebemos que ele exige uma intensa atividade mental. A cognição social busca compreender justamente esse fenômeno: como os seres humanos organizam mentalmente as informações sociais e constroem sentido sobre o comportamento próprio e alheio . A mente humana não funciona como um simples espelho da realidade. Ao contrário, ela atua como um sistema ativo de interpretação. Cada pessoa observa o mundo a partir de esquemas mentais construídos ao longo da experiência. Esses esquemas são estruturas cognitivas que ajudam a organizar o conhecimento e permitem compreender rapidamente situações sociais complexas. Sem eles, cada encontro com outra pessoa exigiria uma análise completamente nova, tornando a vida social extremamente lenta e difíc...