O dia em que o amor precisou ser nomeado
Lembro-me de uma sessão específica que, embora simples em aparência, carrega até hoje um peso simbólico importante. A pessoa à minha frente não falava de agressões físicas, nem de cenas explícitas de violência. Falava de cansaço. Um cansaço profundo, silencioso, daqueles que não se resolvem com descanso. Em determinado momento, após uma longa pausa, veio a frase: “Ele diz que faz tudo isso porque me ama.” Havia ali controle, havia humilhação sutil, havia exigências constantes. Nada era gritado, nada parecia excessivo aos olhos de fora. Ainda assim, algo naquela relação exigia que aquela pessoa fosse cada vez menos quem era. Menos opinião, menos desejo, menos presença. Foi nesse ponto que o trabalho analítico se abriu. Ao longo das sessões, não se tratou de convencer, nem de apontar culpados. Tratou-se de escutar. Escutar o que aquele amor estava pedindo como preço. Escutar o quanto, em nome de manter o vínculo, aquela pessoa havia aprendido a se calar, a se adaptar, a se anu...