O dia em que o amor precisou ser nomeado
Lembro-me de uma sessão específica que, embora simples em aparência, carrega até hoje um peso simbólico importante. A pessoa à minha frente não falava de agressões físicas, nem de cenas explícitas de violência. Falava de cansaço. Um cansaço profundo, silencioso, daqueles que não se resolvem com descanso.
Em determinado momento, após uma longa pausa, veio a frase:
“Ele diz que faz tudo isso porque me ama.”
Havia ali controle, havia humilhação sutil, havia exigências constantes. Nada era gritado, nada parecia excessivo aos olhos de fora. Ainda assim, algo naquela relação exigia que aquela pessoa fosse cada vez menos quem era. Menos opinião, menos desejo, menos presença.
Foi nesse ponto que o trabalho analítico se abriu.
Ao longo das sessões, não se tratou de convencer, nem de apontar culpados. Tratou-se de escutar. Escutar o que aquele amor estava pedindo como preço. Escutar o quanto, em nome de manter o vínculo, aquela pessoa havia aprendido a se calar, a se adaptar, a se anular.
Em algum momento do processo, surgiu uma constatação que não veio como ensinamento, mas como descoberta:
o amor não deveria machucar.
não deveria humilhar.
não deveria controlar.
e, sobretudo, não deveria exigir que alguém deixasse de existir para ser aceito.
Essa compreensão não aparece de forma imediata. Ela se constrói com tempo, com elaboração e, muitas vezes, com dor. Há relações que se sustentam mais pela culpa e pelo medo do abandono do que pelo desejo genuíno de estar junto. Há vínculos que se confundem com dependência, e dependência não é amor, ainda que se apresente com esse nome.
Na clínica, vejo repetidamente o quanto muitas pessoas aprenderam que amar é suportar. Suportar o incômodo, a diminuição, o silenciamento. Como se o sofrimento fosse uma prova de compromisso. Como se o amor verdadeiro precisasse do sacrifício do próprio sujeito.
A Psicanálise nos ensina algo fundamental: quando o amor exige a anulação do eu, já não estamos falando de amor, mas de uma relação que se organiza pela falta, pelo medo e pela repetição de feridas antigas.
Reconhecer isso não é simples. Mas é, muitas vezes, o primeiro passo para que alguém volte a se autorizar a existir por inteiro.
Porque o amor que vale a pena não aprisiona.
Ele sustenta.
Ele respeita.
Ele permite que dois existam, não que um desapareça.
—
André Gasparini
Psicanalista
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