Moscovici

 Imagine Paris nos anos 1950 e 1960. A psicanálise começava a sair dos consultórios, atravessava as paredes dos hospitais, invadia cafés, jornais, revistas, mesas de jantar. Todo mundo falava de complexo, recalque, trauma, subconsciente. Mas que psicanálise era essa que circulava nas conversas e nas manchetes. Era a mesma teoria rigorosa de Freud e seus herdeiros, ou algo novo estava nascendo ali, no terreno do senso comum. É exatamente essa pergunta que Serge Moscovici decide enfrentar em A representação social da psicanálise. Em vez de discutir a psicanálise em termos estritamente teóricos, ele se pergunta como uma sociedade inteira passa a imaginar, narrar e usar essa teoria quando ela deixa de ser privilégio de especialistas e se torna palavra da rua.

O gesto de Moscovici é simples e radical ao mesmo tempo. Ele escolhe um objeto que já é, em si, polêmico e carregado de afetos – a psicanálise – e o toma não como doutrina, mas como fenômeno social. Em vez de perguntar se Freud está certo ou errado, ele pergunta: que imagem da psicanálise circula no espaço público. Como ela aparece na imprensa católica, na imprensa comunista, nas revistas de divulgação acadêmica. Que linguagem se cria quando se fala de inconsciente para um público que nunca leu uma linha de Freud. O livro acompanha esse percurso como um grande estudo de caso sobre a viagem de uma ideia científica quando ela cruza a fronteira da especialização e entra na cultura leiga.

A chave que Moscovici introduz para pensar essa viagem é justamente a noção de representação social. Ele mostra que, quando uma teoria como a psicanálise entra no cotidiano, a sociedade não a recebe como um espelho fiel do que os especialistas dizem. Ao contrário, elabora em torno dela uma espécie de conhecimento próprio do senso comum, que tem lógica e funções específicas. A psicanálise passa a ser ancorada em categorias já conhecidas – alma, confissão, pecado, natureza humana, luta de classes – e objetivada em imagens fortes e simplificadas: o divã, o inconsciente como um porão escuro, o analista calado, o sonho como código secreto. Aquilo que em Freud é um sistema complexo de conceitos passa a ser traduzido em fórmulas, metáforas, rótulos. Todo mundo vira “um pouco psicanalista” ao usar essas palavras, mas quase nunca no sentido rigoroso em que foram formuladas originalmente.

O fascinante no trabalho de Moscovici é que ele não trata essas distorções como simples erro ou vulgarização lamentável. Ele mostra que a sociedade precisa fazer isso para domesticar um saber que, de outro modo, seria ameaçador demais. A psicanálise mexe com sexualidade, infância, família, religião, autoridade; ela desnaturaliza papéis, mostra ambivalências, fala de desejo onde se esperava apenas dever. Ao entrar na cultura, esse discurso precisa ser encaixado nas molduras existentes. A imprensa católica, por exemplo, tende a ler a psicanálise como uma espécie de nova confissão, que poderia ser moralizada e subordinada a uma visão de homem já dada pela religião. A imprensa ligada à tradição marxista, por outro lado, critica Freud como produto burguês, suspeita de individualismo, mas ao mesmo tempo se apropria de alguns elementos para falar de ideologia, alienação, conflito. Já a divulgação “científica” transforma o analista num técnico da alma, a psicanálise em higiene mental, instrumento de adaptação mais eficiente à vida moderna.

Desse modo, A representação social da psicanálise revela três universos discursivos convivendo em torno do mesmo objeto, cada um fabricando sua própria psicanálise. A mesma teoria, ao ser falada em registros diferentes, deixa de ser uma e torna se múltipla. Em cada contexto, certas ideias são exaltadas, outras silenciadas, outras ainda frontalmente negadas. O inconsciente vira palavra de moda, mas perde opacidade; o recalque vira desculpa para tudo, mas a dimensão de conflito estrutural se dilui; o complexo de Édipo vira piada, mas também chave mágica para explicar qualquer problema familiar. Moscovici não está apenas descrevendo mal entendidos; está mostrando como a sociedade produz um saber que lhe seja funcional, capaz de encaixar a novidade sem explodir o que já está estabelecido.

Para a psicologia social, esse livro é fundacional porque inaugura um modo de pesquisa que leva a sério o senso comum. Ele analisa jornais, revistas, discursos, em vez de se contentar com questionários abstratos. Observa como as pessoas falam, que histórias contam, quais exemplos escolhem, e extrai daí estruturas de representação que organizam o modo como uma coletividade compreende determinado objeto. Ao fazer isso com a psicanálise, Moscovici também presta um serviço involuntário à própria psicanálise. Ele mostra aos analistas que, quando um paciente chega ao consultório dizendo que quer “fazer análise”, já não chega virgem de representações; traz na cabeça uma psicanálise socialmente fabricada, cheia de expectativas, medos, fantasias, piadas, caricaturas. Ignorar isso é ignorar parte fundamental da transferência e do laço que se estabelece com o dispositivo analítico.

O livro também é profundamente político. Ao mostrar como a psicanálise é representada de forma diferente por grupos com interesses ideológicos diversos, Moscovici revela que as representações sociais não são neutras: elas tomam partido, mesmo quando parecem apenas descrever. Chamá la de “ciência burguesa”, “nova confissão” ou “higiene mental” não é apenas uma questão de palavras; é enquadrar de antemão o que se pode esperar dela, que usos são legítimos, que efeitos são desejáveis ou temidos. No limite, ele nos ensina que toda vez que uma nova prática, uma nova categoria, um novo discurso entra em circulação – seja psicanálise, seja “saúde mental”, “neurodivergência”, “autocuidado” – a sociedade se apressa em construir representações que podem tanto abrir quanto fechar possibilidades. O terreno em que trabalhamos, hoje, com subjetividades, é também o terreno onde essas representações se enfrentam.

Ler A representação social da psicanálise hoje é perceber que o fenômeno que Moscovici descreveu apenas se intensificou. Em tempos de redes sociais, lives, influenciadores e memes, a psicanálise aparece diluída em frases de efeito, conselhos rápidos, slogans de autoajuda e, ao mesmo tempo, em críticas ferozes e caricaturas. O livro nos dá instrumentos para não nos limitarmos a lamentar essa situação, mas para compreendê la em profundidade: que psicanálise está sendo representada quando alguém fala de “tóxicos”, “traumas”, “gatilhos”, “narcisistas” em linguagem de internet. E que lugar queremos ocupar, como clínicos ou pesquisadores, nesse jogo de imagens que, quer se queira quer não, molda desde o pedido de ajuda até a forma de sofrimento que chega à nossa escuta.

No fim das contas, Moscovici nos obriga a aceitar uma verdade incômoda e fecunda: nenhuma teoria vive apenas nos livros que a consagraram. Ela continua vivendo, transformada, na fala dos que a usam, a rejeitam, a vulgarizam, a reinventam. A representação social da psicanálise é a história de como Freud ganhou, perdeu e trocou de rosto ao ser adotado por uma sociedade inteira. E é, ao mesmo tempo, um convite para que possamos pensar, com a mesma finura, as outras teorias e práticas que hoje disputam o imaginário social em torno do sofrimento, da saúde, do inconsciente e daquilo que chamamos, de maneira sempre provisória, de sujeito.

Referências

Moscovici, S. A representação social da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
Moscovici, S. Representações sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2003.

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