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Mostrando postagens de novembro, 2025

Freud não fala em “desenvolvimento cognitivo”

 Vou partir de uma distinção importante: Freud não fala em “desenvolvimento cognitivo” nos termos em que a psicologia do desenvolvimento posterior (Piaget, por exemplo) o formula. Em Freud, não há um modelo de estágios cognitivos, mas há uma teoria do desenvolvimento do aparelho psíquico e do eu, na qual a capacidade de pensar, julgar, lembrar, simbolizar e testar a realidade se constitui pouco a pouco, a partir da economia pulsional e dos conflitos infantis. Em outras palavras, se quisermos falar de “desenvolvimento cognitivo para Freud”, estamos falando do modo como o aparelho psíquico vai se organizando para poder: Tolerar a falta Adiar a satisfação Representar em vez de agir Submeter o desejo ao princípio de realidade A seguir, organizo essa ideia em alguns eixos. 1. ponto de partida: da vivência de satisfação ao esboço do pensar No manuscrito de 1895, o “Projeto para uma psicologia científica” , Freud pensa o funcionamento psíquico a partir de um modelo quas...

Pensar para Lacan, ou quando o sujeito descobre que não manda nos próprios pensamentos

 Para Lacan, pensar não é uma atividade transparente de um eu consciente que domina o que diz e o que sente. Ao contrário, o pensamento é efeito de algo que o sujeito não controla, o inconsciente estruturado como uma linguagem. Por isso, em vez de repetir o “penso, logo existo” de Descartes, Lacan formula, de modo provocador: “Eu penso onde não sou, logo sou onde não penso”. A partir desta inversão, o pensar deixa de ser garantia de identidade e passa a ser índice de divisão, de hiato e de falta. O sujeito lacaniano não coincide consigo mesmo, nem com aquilo que pensa de si. A seguir, desenvolvo alguns eixos para responder à pergunta: o que é pensar para Lacan. 1. Do “penso, logo existo” ao “penso onde não sou” Lacan retoma o cogito cartesiano em diversos momentos, especialmente em “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano” , texto dos Escritos . Ali, ele desloca a evidência do “eu penso” e mostra que, para a psicanálise, o pensamento não é a base ...

Por que Freud ainda incomoda: o escândalo de continuarmos tão parecidos com o século XIX

Dizem que Freud é antigo, datado, que o mundo mudou, que hoje temos neurociência, psicofármacos, redes sociais e diagnósticos cada vez mais sofisticados. E, ainda assim, quando alguém se senta em um consultório e começa a falar de seus sonhos estranhos, da sensação de repetir sempre o mesmo erro, do amor que o destrói, da angústia que aperta o peito sem motivo aparente, o que volta à cena é exatamente o campo que Freud abriu. O que há de atual em Freud não é a moda das suas palavras nem a época em que escreveu, mas o fato incômodo de que a estrutura do sofrimento humano não mudou tanto quanto gostaríamos de acreditar. Freud permanece atual, antes de tudo, porque ele levou a sério aquilo que a própria pessoa não domina em si. O inconsciente, tal como ele o formula, não é um porão exótico da mente, é o nome dado ao fato de que o sujeito fala mais do que sabe, faz mais do que quer, deseja mais do que admite. Em um tempo em que se promete controle sobre tudo, do humor ao desempenho, Freud...

Quando o sagrado vira compulsão: por que Freud 1907 ainda está sentado no nosso consultório

Há textos de Freud que parecem ficar presos ao seu tempo histórico e há outros que, mesmo escritos no início do século XX, continuam atravessando o consultório como se tivessem sido redigidos ontem. “Atos obsessivos e práticas religiosas”, de 1907, é um desses. Nele, Freud se aproxima de dois mundos que, à primeira vista, parecem distantes: a neurose obsessiva e a religião. E faz uma aposta ousada: existe uma semelhança estrutural entre o ritual do neurótico e certas práticas religiosas. Essa intuição, com todos os seus excessos e limites, ainda ilumina muito do que vemos hoje na clínica, tanto em sujeitos religiosos quanto em sujeitos que juram não acreditar em nada. O núcleo mais vivo do texto é a percepção de que o ato obsessivo não é simplesmente uma “mania sem sentido”, fruto de uma mente desorganizada. Ao contrário, ele tem uma lógica rigorosa, uma função precisa: proteger o sujeito de desejos, fantasias e agressividades que ele não consegue admitir como seus. O obsessivo inventa...

Freud matou Deus? Entre o ateísmo declarado e o olhar clínico sobre a fé

 A pergunta é direta e inevitável: Freud era ateu? Em termos pessoais, sim, Freud se declarou claramente incrédulo, sem fé em Deus, aproximando-se da posição que hoje chamaríamos de ateísmo. Mas, para além da crença ou descrença, o que o interessa não é decidir se Deus existe, e sim compreender o que significa, para o sujeito e para a cultura, acreditar em Deus. Ele fala de Deus como figura psíquica ligada ao pai, ao desamparo infantil e às necessidades da vida em civilização. A seguir, mantenho a estrutura anterior, agora incorporando explicitamente a questão do ateísmo freudiano. 1. Freud era ateu? Sua posição pessoal sobre Deus Freud nasce em um ambiente judaico, conhece profundamente a tradição religiosa, mas, desde cedo, se posiciona como descrente . Em cartas a amigos e em textos teóricos, ele se define como alguém sem fé religiosa, um “completo incrédulo”. Em termos simples: Freud não adere a nenhuma fé revelada Não admite a existência de Deus como hipótese de tr...

Pensar para Freud: quando o desejo aprende a esperar

O que significa “pensar” em Freud não é, de modo algum, um detalhe periférico de sua teoria. Pensar não é apenas “raciocinar” ou “refletir”, mas um trabalho psíquico complexo que nasce do encontro tenso entre desejo, corpo e realidade. Na arquitetura freudiana, o pensamento aparece como uma solução achada pelo aparelho psíquico para um problema muito antigo: como buscar satisfação sem se destruir, nem ser destruído, pelos limites do mundo externo. A seguir, desenvolvo essa ideia em alguns eixos centrais, apoiado em textos fundamentais de Freud e indicando referências ao final. 1. O nascimento do pensar: do arco reflexo à falta do objeto No manuscrito conhecido como “Projeto para uma psicologia científica” (1895), Freud parte de um modelo neurofisiológico simples, o do arco reflexo: estímulo leva à descarga, descarga reduz a tensão. Se o mundo fosse sempre previsível, o organismo responderia de forma quase automática, descarregando imediatamente a excitação. Só que a vida não é assim. ...