Freud não fala em “desenvolvimento cognitivo”

 Vou partir de uma distinção importante: Freud não fala em “desenvolvimento cognitivo” nos termos em que a psicologia do desenvolvimento posterior (Piaget, por exemplo) o formula. Em Freud, não há um modelo de estágios cognitivos, mas há uma teoria do desenvolvimento do aparelho psíquico e do eu, na qual a capacidade de pensar, julgar, lembrar, simbolizar e testar a realidade se constitui pouco a pouco, a partir da economia pulsional e dos conflitos infantis.

Em outras palavras, se quisermos falar de “desenvolvimento cognitivo para Freud”, estamos falando do modo como o aparelho psíquico vai se organizando para poder:

  • Tolerar a falta

  • Adiar a satisfação

  • Representar em vez de agir

  • Submeter o desejo ao princípio de realidade

A seguir, organizo essa ideia em alguns eixos.


1. ponto de partida: da vivência de satisfação ao esboço do pensar

No manuscrito de 1895, o “Projeto para uma psicologia científica”, Freud pensa o funcionamento psíquico a partir de um modelo quase neurológico. O bebê, diante da excitação interna (fome, por exemplo), busca descarregar essa tensão. Quando o objeto aparece e a necessidade é satisfeita, estabelece-se uma vivência de satisfação que deixa traços de memória.

Depois, quando a excitação retorna, esses traços são reativados. Inicialmente, o aparelho tende à alucinação de satisfação: reativar a imagem, como se fosse suficiente. À medida que a vivência alucinatória se revela incapaz de suprir a necessidade, o aparelho precisa encontrar outro caminho. Aí começa a se esboçar algo que, mais tarde, Freud caracterizará como pensamento:

  • Inibição da descarga motora imediata

  • Formação de representações intermediárias

  • Busca, no mundo externo, de um objeto que corresponda ao traço de memória

Este é o início, em Freud, de um desenvolvimento que hoje se chamaria “cognitivo”: o organismo deixa de reagir apenas por reflexo e passa a organizar uma mediação entre necessidade, imagem e realidade.


2. Do princípio do prazer ao princípio de realidade

Em “Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico” (1911), Freud retoma esse percurso em linguagem mais psicológica. No início da vida psíquica, domina o princípio do prazer: evitar o desprazer, buscar a descarga máxima de tensão. O bebê, nesse momento, ainda não distingue claramente entre representação e realidade.

Com a experiência, a criança aprende que:

  • Nem toda representação garante satisfação

  • Nem todo desejo pode ser realizado imediatamente

  • Há um mundo externo relativamente estável e resistente

Para lidar com isso, o aparelho psíquico introduz o princípio de realidade, que implica:

  • Adiamento da satisfação

  • Prova da realidade

  • Planejamento de vias indiretas de realização

Freud define o pensamento, nesse contexto, como um ensaio em representações. Em vez de agir de modo impulsivo, o sujeito experimenta mentalmente caminhos, compara, prevê, avalia. Este é o núcleo do que, em Freud, se aproxima da ideia moderna de função cognitiva.


3. O papel do eu e das funções “cognitivas” clássicas

Quando Freud desenvolve a metapsicologia do eu, em textos como “Introdução ao narcisismo” (1914) e, sobretudo, “O ego e o id” (1923), ele passa a falar de certas funções que, na psicologia do ego posterior, serão chamadas funções cognitivas:

  • Prova de realidade

  • Juízo

  • Atenção

  • Memória

  • Capacidade de adiar a ação

  • Síntese de representações

Para Freud, essas funções não se desenvolvem isoladas, mas em íntima conexão com:

  • A história libidinal da criança

  • As experiências de satisfação e frustração

  • A dinâmica do recalcamento e dos conflitos edípicos

O eu se constitui a partir de identificações, investimentos narcisistas e exigências do mundo externo. O que se chama “desenvolvimento cognitivo”, em uma leitura freudiana, é inseparável da constituição do eu como instância de mediação entre o id, o supereu e a realidade.


4. Fases psicosexuais e capacidade de pensar

As fases psicosexuais descritas por Freud em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (1905) e em outros textos são, em primeiro plano, uma teoria da sexualidade infantil. No entanto, cada fase implica também uma maneira específica de relação com o objeto, com o corpo e com a regra, que repercute na forma de pensar.

De maneira sintética:

  • Fase oral: predominam experiências de incorporação, dependência radical do outro. A construção de um “dentro” e um “fora” começa aqui, o que é fundamental para qualquer operação posterior de pensamento.

  • Fase anal: ligada ao controle de esfíncteres, à ambivalência entre reter e expulsar. Surgem formas de relação com a ordem, com o domínio e com a destruição que terão efeitos na maneira de lidar com regras, limites, negociações.

  • Fase fálica e complexo de Édipo: a criança se confronta com diferenças de sexo e geração, com a castração e com a lei. A forma como o complexo de Édipo é atravessado marca profundamente a capacidade de reconhecer limites, aceitar frustrações e simbolizar a falta.

  • Latência: relativa calmaria pulsional, com investimento mais intenso nas aprendizagens, na socialização, na cultura. Aqui se consolida, em grande parte, aquilo que a escola reconhece como “desempenho cognitivo”.

  • Fase genital: reorganização da sexualidade em torno da genitalidade e dos laços amorosos mais maduros.

Em termos freudianos, poderíamos dizer que o “desenvolvimento cognitivo” depende de como o sujeito atravessa essas fases, de como lida com frustração, castração, lei e desejo. A capacidade de pensar de modo mais elaborado se apoia na possibilidade de simbolizar experiências pulsionais em vez de simplesmente atuá-las.


5. Inconsciente, recalcamento e limites do pensar

Freud enfatiza, em “O inconsciente” (1915), que há pensamentos inconscientes tão articulados quanto os conscientes, mas que não podem chegar à consciência por causa do recalcamento. Isso significa que o desenvolvimento das capacidades de pensar não é linear nem transparente.

Há sempre:

  • Um resto não simbolizado

  • Um núcleo recalcado que retorna em sintomas, sonhos, atos falhos

  • Áreas em que o sujeito “age” em vez de pensar

Do ponto de vista do desenvolvimento, isso se traduz em:

  • Zonas de pensamento mais flexível, aberto, capaz de elaboração

  • Zonas rigidamente defendidas, repetitivas, onde o sujeito gira em torno de algo sem conseguir elaborar

O trabalho analítico, em “Recordar, repetir e elaborar” (1914), é justamente o de transformar repetição em possibilidade de pensamento, ato em lembrança, padecimento mudo em palavra.


6. Uma síntese possível em linguagem contemporânea

Se traduzirmos para a linguagem atual, poderíamos dizer que, para Freud, o que chamamos de “desenvolvimento cognitivo” é:

  • A progressiva capacidade do eu de lidar com a excitação pulsional

  • A passagem do princípio do prazer ao princípio de realidade

  • A construção de um aparelho de pensamento capaz de representar, comparar, julgar, simbolizar

  • Tudo isso sempre atravessado pela sexualidade infantil, pela castração e pelo recalcamento

Ou seja, não há, em Freud, um desenvolvimento cognitivo “neutro” ou apenas lógico. Todo desenvolvimento das funções consideradas cognitivas é, em última instância, libidinal e conflitivo. Pensar, lembrar, julgar e aprender são formas encontradas pelo sujeito para tratar o desejo e o gozo, sob as condições impostas pela realidade e pela lei.


Referências freudianas principais

  • Freud, S. (1895). Projeto para uma psicologia científica.

  • Freud, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade.

  • Freud, S. (1911). Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico.

  • Freud, S. (1914). Recordar, repetir e elaborar.

  • Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo.

  • Freud, S. (1915). O inconsciente.

  • Freud, S. (1923). O ego e o id.

    André Gasparini
    11 92096-9928

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