Freud matou Deus? Entre o ateísmo declarado e o olhar clínico sobre a fé

 A pergunta é direta e inevitável: Freud era ateu?

Em termos pessoais, sim, Freud se declarou claramente incrédulo, sem fé em Deus, aproximando-se da posição que hoje chamaríamos de ateísmo. Mas, para além da crença ou descrença, o que o interessa não é decidir se Deus existe, e sim compreender o que significa, para o sujeito e para a cultura, acreditar em Deus.

Ele fala de Deus como figura psíquica ligada ao pai, ao desamparo infantil e às necessidades da vida em civilização. A seguir, mantenho a estrutura anterior, agora incorporando explicitamente a questão do ateísmo freudiano.


1. Freud era ateu? Sua posição pessoal sobre Deus

Freud nasce em um ambiente judaico, conhece profundamente a tradição religiosa, mas, desde cedo, se posiciona como descrente. Em cartas a amigos e em textos teóricos, ele se define como alguém sem fé religiosa, um “completo incrédulo”.

Em termos simples:

  • Freud não adere a nenhuma fé revelada

  • Não admite a existência de Deus como hipótese de trabalho

  • Considera a visão religiosa de mundo como uma construção ilusória

Por isso, é legítimo dizer que Freud foi ateu, no sentido de não crer em Deus e não admitir um fundamento sobrenatural para a realidade. Porém, o ponto decisivo é que ele não para aí. Em vez de fazer militância contra a fé, ele se pergunta:
Como nasce a ideia de Deus no psiquismo? Que função ela cumpre na vida do sujeito e da civilização?

Ou seja, seu ateísmo não é apenas filosófico, é também clínico e metapsicológico.


2. Deus como “pai engrandecido” e projeção do desamparo infantil

Em “O futuro de uma ilusão” (1927), Freud apresenta uma de suas teses centrais sobre Deus. Ele parte da experiência infantil:

  • A criança é radicalmente dependente dos pais

  • Encontra no pai e na mãe proteção contra perigos, explicações para o que não entende, apoio diante do medo

  • Essa situação de desamparo (Hilflosigkeit) deixa marcas profundas

Na vida adulta, quando o sujeito se depara com:

  • A morte

  • As forças incontroláveis da natureza

  • O acaso, a doença, as perdas

Ele retoma, em outro nível, esse desamparo infantil. A imagem de Deus surge, para Freud, como projeção dessa experiência:

  • Deus como quem protege

  • Deus como quem pune

  • Deus como quem sabe e garante um sentido último

Por isso, Freud definirá Deus como um “pai engrandecido”. A figura paterna da infância é ampliada até a escala cósmica. Assim, a crença em Deus nasce menos de uma prova racional e mais de uma necessidade afetiva e infantil de amparo.


3. Religião como “neurose obsessiva da humanidade”

Em “Atos obsessivos e práticas religiosas” (1907), Freud compara:

  • Rituais obsessivos de pacientes

  • Práticas religiosas, com seus ritos, proibições, expiações

Ele nota semelhanças:

  • Regras rígidas

  • Repetições

  • Rituais aparentemente sem finalidade prática, mas carregados de culpa e alívio

A partir daí, formula a ideia de que a religião funciona como uma neurose obsessiva coletiva, uma espécie de neurose universal da humanidade.

Em “O futuro de uma ilusão”, essa crítica se aprofunda. Freud entende a religião como:

  • Sistema de crenças fundado na força do desejo, não em evidência empírica

  • Tentativa de domesticar a angústia e o desamparo

  • Conjunto de ilusões, isto é, crenças sustentadas por aquilo que se deseja que seja verdade

Isso não é apenas ateísmo. Trata-se de uma leitura psicológica da religião como sintoma cultural, cuja função é proteger o sujeito da angústia, mesmo que à custa de uma certa infantilização.


4. Deus, pai primordial e a origem do monoteísmo

Em “Totem e tabu” (1913) e “Moises e o monoteísmo” (1939), Freud radicaliza sua investigação: como teria surgido a ideia de um Deus único e onipotente?

De modo muito resumido:

  • Em “Totem e tabu”, ele imagina um mito científico de uma horda primitiva, na qual um pai poderoso detinha todas as mulheres e proibía os filhos de gozarem delas

  • Os filhos se unem, matam o pai, mas depois são tomados pela culpa

  • O pai morto é então elevado à condição de figura totêmica, temida e venerada, origem de proibições e leis

Nesta leitura, a figura de Deus seria herdeira desse pai primordial, morto mas idealizado. Em “Moises e o monoteísmo”, ao abordar o Deus único da tradição judaica, Freud vê:

  • Um Deus abstrato, legislador, exigente

  • Uma relação muito marcada pela obediência, pela culpa e pela fidelidade a um pai fundador

  • Uma construção que carrega traços de traumas históricos e de uma memória inconsciente coletiva

Assim, Deus aparece novamente como figura paterna idealizada e como suporte simbólico da lei.


5. Deus, lei e renúncia pulsional em “O mal estar na civilização”

Em “O mal estar na civilização” (1930), Freud reflete sobre o preço que pagamos para viver em sociedade. Para manter uma cultura minimamente estável, é preciso:

  • Conter a agressividade

  • Regular a sexualidade

  • Organizar o trabalho e a vida comum

Isso exige um alto grau de renúncia pulsional. O sujeito renuncia a muitas satisfações em nome da vida civilizada.

Qual o papel de Deus neste contexto?

  • A figura de Deus legitima a lei moral, como se ela viesse de uma instância superior

  • Oferece recompensas em outro plano, quando aqui só há renúncia e sacrifício

  • Fornece um “sentido” para o sofrimento inevitável da vida

Para Freud, esse arranjo tem valor histórico, mas mantém o sujeito em posição infantilizada, sempre sob o olhar de um Pai absoluto. Daí sua convicção de que a humanidade precisaria, em algum momento, encarar a realidade sem esse amparo ilusório, sustentando uma ética menos dependente de um Deus externo.


6. Ateísmo sem desprezo: nuances e ambivalência da posição freudiana

Mesmo sendo ateu, Freud não escreve como simples panfletário antirreligioso. Há nuances importantes:

  1. Ele reconhece que a religião teve funções civilizatórias decisivas, ajudando a conter a violência e a organizar a vida social.

  2. Distingue a verdade histórica das doutrinas religiosas da força psíquica que elas têm na vida dos indivíduos. Uma crença pode ser ilusória e, ainda assim, extremamente eficaz na organização subjetiva.

  3. Em alguns textos e cartas, demonstra respeito pela experiência íntima do crente, embora não compartilhe a fé nem aceite suas premissas.

Em síntese, podemos dizer:

  • Sim, Freud era ateu, no sentido de recusar a crença em Deus e interpretar a religião como ilusão.

  • Não, ele não se limita a negar Deus. Em vez disso, faz de Deus um objeto de investigação psicanalítica, buscando compreender o que a crença revela sobre o desejo, o desamparo, a história infantil de cada sujeito e a história da própria civilização.

A questão freudiana, portanto, não é “Deus existe ou não existe?”, mas:

O que está em jogo, psíquica e culturalmente, quando um sujeito diz “eu creio em Deus” ou “eu não creio em Deus”?


Referências principais em que Freud fala de Deus e religião

  • Freud, S. (1907). Atos obsessivos e práticas religiosas.

  • Freud, S. (1913). Totem e tabu.

  • Freud, S. (1927). O futuro de uma ilusão.

  • Freud, S. (1930). O mal estar na civilização.

  • Freud, S. (1939). Moises e o monoteísmo.

  • Correspondência de Freud com Oskar Pfister e outros, na qual ele comenta de forma mais direta sua posição de incrédulo e sua leitura psicológica da fé.

    André Gasparini

    Psicanalista e Hipnoterapeuta

    11 92096-9928

    Centro Comercial Alphaville - Calçada das Anêmonas, 20 - Alphaville, Barueri - SP, 06453-005, Brasil

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