Pensar para Lacan, ou quando o sujeito descobre que não manda nos próprios pensamentos
Para Lacan, pensar não é uma atividade transparente de um eu consciente que domina o que diz e o que sente. Ao contrário, o pensamento é efeito de algo que o sujeito não controla, o inconsciente estruturado como uma linguagem. Por isso, em vez de repetir o “penso, logo existo” de Descartes, Lacan formula, de modo provocador:
“Eu penso onde não sou, logo sou onde não penso”.
A partir desta inversão, o pensar deixa de ser garantia de identidade e passa a ser índice de divisão, de hiato e de falta. O sujeito lacaniano não coincide consigo mesmo, nem com aquilo que pensa de si.
A seguir, desenvolvo alguns eixos para responder à pergunta: o que é pensar para Lacan.
1. Do “penso, logo existo” ao “penso onde não sou”
Lacan retoma o cogito cartesiano em diversos momentos, especialmente em “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”, texto dos Escritos. Ali, ele desloca a evidência do “eu penso” e mostra que, para a psicanálise, o pensamento não é a base sólida do eu, e sim o lugar em que aparece a divisão do sujeito.
Quando Lacan escreve “Je pense là où je ne suis pas, donc je suis là où je ne pense pas”, ele indica duas coisas fundamentais:
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O pensar não garante presença plena de si, ele revela um ponto em que o sujeito não se encontra inteiro.
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O ser do sujeito se localiza justamente onde o pensamento falta, onde algo escapa ao sentido.
Pensar, deste ponto de vista, já não é um ato de soberania do eu, mas o sintoma de que o sujeito é atravessado por algo que pensa nele sem que ele o saiba completamente.
2. O inconsciente pensa por meio de significantes
Quando Lacan afirma, em “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”, que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, ele está dizendo que o trabalho psíquico se organiza em cadeias de significantes, com leis próprias de associação, deslocamento e condensação.
O pensamento, então, não é simplesmente “ideia”, é efeito de:
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Cadeias de significantes que se articulam, se combinam e se deslocam
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Metáforas e metonímias que condensam e deslocam o desejo
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Um discurso que não é apenas o do eu, mas o discurso do Outro
É por isso que fenômenos pessoais como um lapso, uma frase que escapa, uma associação inesperada em análise, revelam que “algo pensa em mim” antes de eu me dar conta. O inconsciente pensa, mas não como um sujeito autônomo, e sim como um funcionamento de linguagem que afeta o sujeito.
3. O sujeito representado por um significante para outro significante
No Seminário 17, “O avesso da psicanálise”, Lacan formula que o sujeito é aquilo que um significante representa para outro significante. Em lugar de uma substância interior, temos um efeito de articulação significante.
Pensar, neste contexto, significa:
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Ser tomado por essas articulações entre significantes
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Ocupar, por um instante, o lugar de sujeito em uma frase, um enunciado, um discurso
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Ser representado, e nunca inteiramente, por aquilo que se diz
O sujeito não precede o pensamento, ele se produz a partir do que o significante representa. O pensamento lacaniano é, portanto, inseparável da linguagem e da posição do sujeito na cadeia significante.
4. Pensar e falar: o sujeito falante e a fala que o ultrapassa
Desde “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, Lacan insiste que a fala é mais importante que a consciência de significados que o eu imagina controlar. O sujeito é fundamentalmente um ser falante, um parlêtre, como ele vai acentuar no Seminário 20, “Mais, ainda”.
Isso tem uma consequência direta para a questão do pensar:
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Pensar não é só “ter ideias”, é ser afetado pela própria fala, inclusive pelaquilo que se diz sem querer.
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O pensamento aparece como efeito da fala, e não apenas como sua causa.
Em análise, isso se vê com clareza. O analisando fala, associa, às vezes dizendo “nem sei por que estou falando isso”. Ao ouvir-se, descobre que aquele dizer produz novos pensamentos, que não estavam prontos na consciência antes de serem ditos. A fala vai à frente, o pensamento vem atrás, tentando acompanhar.
5. Pensar, gozo e insistência do sintoma
Para Lacan, o pensamento não é apenas representação, ele envolve também gozo. Ideias fixas, ruminações, preocupações obsessivas, não são apenas “conteúdo mental”. São formas de gozo, lugares em que o sujeito se agarra a um modo de sofrer.
No Seminário 11, “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”, ao tratar da repetição, Lacan mostra como o sujeito retorna a certos significantes, a certas cenas, como alguém que retorna a um ponto de satisfação opaca, mesmo que dolorosa.
Deste ponto de vista:
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Há pensamentos que o sujeito “não consegue largar”, porque neles há um núcleo de gozo.
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O pensar neurótico não é só busca de solução, é também manutenção de um modo de gozar.
Pensar, então, pode ser também uma forma de não mudar, de contornar o real, de girar ao redor de um ponto impossível de simbolizar. O discurso interno que se repete, que se volta sempre às mesmas queixas, é uma forma de pensamento que sustenta o sintoma.
6. Pensar em análise: entre associação livre e sujeito suposto saber
Na clínica lacaniana, pensar não é ficar “refletindo” ou “interpretando” mentalmente, é associar livremente e confiar na lógica do dizer. A regra fundamental de Freud, retomada por Lacan, convida o analisando a dizer tudo o que lhe vem à mente, mesmo que pareça sem importância, absurdo ou vergonhoso.
Neste quadro:
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A tarefa não é produzir pensamentos organizados, mas expor, na fala, o modo como o inconsciente pensa.
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O analista ocupa o lugar de sujeito suposto saber, que sustenta a ideia de que aquilo que o analisando diz tem um sentido a descobrir.
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O verdadeiro trabalho de pensamento surge quando o sujeito é confrontado com o que ele não sabia que pensava, mas que seu dizer já deixava aparecer.
O resultado desse processo não é um saber total, e sim um saber marcado pela castração, pela falta, pela descoberta de que pensar implica sempre lidar com um ponto de não saber, um real que escapa.
7. Uma síntese: o que é pensar para Lacan
De forma sintética, podemos dizer que, para Lacan:
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Pensar não é ato de um eu autônomo, é efeito do inconsciente estruturado como linguagem.
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O pensamento se organiza em cadeias de significantes, e o sujeito é um efeito dessas articulações.
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Há um “pensar” que nos atravessa antes de podermos dizer “eu penso”, manifesto em lapsos, sonhos, sintomas e formações do inconsciente.
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A fala vai à frente do pensamento consciente, e a análise aposta na palavra como via privilegiada para fazer surgir o que o sujeito não sabia que pensava.
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Há pensamentos que são formas de gozo, que sustentam o sintoma e mantêm o sujeito preso a certas repetições.
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Pensar, em última instância, é confrontar-se com a divisão: “penso onde não sou, e sou onde não penso”.
Assim, ao contrário da tradição racionalista, o pensamento, para Lacan, não é garantia de identidade, mas lugar em que o sujeito encontra sua própria estranheza. Não é o fundamento de um eu transparente, mas o campo em que o inconsciente se deixa entrever, quando o sujeito aceita escutar o que, nele, pensa para além da sua vontade.
Referências lacanianas citadas
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Lacan, J. Escritos.
Em especial:-
“Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”.
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“A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”.
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“Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”.
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Lacan, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.
Lições de 1964, particularmente os capítulos sobre o sujeito do inconsciente, a repetição e o campo do Outro. -
Lacan, J. O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise.
Desenvolvimentos sobre o sujeito representado por um significante para outro significante e os discursos. -
Lacan, J. O seminário, livro 20: Mais, ainda.
Conceitos de parlêtre, gozo e lalíngua, fundamentais para pensar a articulação entre corpo, linguagem e pensamento.
11 92096-9928
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