Quando o sagrado vira compulsão: por que Freud 1907 ainda está sentado no nosso consultório

Há textos de Freud que parecem ficar presos ao seu tempo histórico e há outros que, mesmo escritos no início do século XX, continuam atravessando o consultório como se tivessem sido redigidos ontem. “Atos obsessivos e práticas religiosas”, de 1907, é um desses. Nele, Freud se aproxima de dois mundos que, à primeira vista, parecem distantes: a neurose obsessiva e a religião. E faz uma aposta ousada: existe uma semelhança estrutural entre o ritual do neurótico e certas práticas religiosas. Essa intuição, com todos os seus excessos e limites, ainda ilumina muito do que vemos hoje na clínica, tanto em sujeitos religiosos quanto em sujeitos que juram não acreditar em nada.

O núcleo mais vivo do texto é a percepção de que o ato obsessivo não é simplesmente uma “mania sem sentido”, fruto de uma mente desorganizada. Ao contrário, ele tem uma lógica rigorosa, uma função precisa: proteger o sujeito de desejos, fantasias e agressividades que ele não consegue admitir como seus. O obsessivo inventa rituais minuciosos para domar a culpa e controlar o que sente como perigoso em si. Uma sequência interminável de lavagens, conferências, contagens e repetições funciona como um tipo de liturgia íntima, um culto privado à sua própria angústia. Freud então olha para as práticas religiosas tradicionais, cheias de prescrições, proibições e formas de purificação, e enxerga ali algo semelhante: também ali há medo de punição, culpa à espera de expiação, atos repetidos que prometem “apaziguar” uma instância superior. A grande sacada freudiana foi deslocar a religião do campo da pura doutrina para o campo da economia psíquica: não interessa apenas o que o sujeito diz crer, interessa que função aquela fé cumpre em relação ao desejo, à culpa e à lei.

É desse ponto que nasce a famosa ideia de que a religião seria uma espécie de neurose obsessiva da humanidade. Dita assim, a formulação é dura, quase cruel. Mas por trás da provocação há algo precioso: a percepção de que a cultura inteira pode organizar rituais, mandamentos e proibições como defesas compartilhadas contra aquilo que a humanidade não suporta reconhecer em si mesma. A religião, nessa leitura, não é só um conjunto de ideias sobre Deus, é também um modo socialmente legitimado de tratar a culpa, a agressividade, a sexualidade, o ódio e o desejo de morte. Em 1907, Freud tem a coragem de dizer que aquilo que vemos no consultório na figura de um sujeito atormentado pelas suas compulsões talvez exista também, em outra escala, na história das crenças coletivas.

É claro que, lido hoje, o texto também mostra as suas costuras. Freud escreve a partir de um mundo religioso muito específico, marcado por moral rígida, ênfase em pecado e punição, práticas de expiação e obediência estrita. Ele generaliza com facilidade, como se “a religião” fosse uma só, sempre culpígena e obsessiva, o que sabemos que não corresponde à riqueza e à diversidade das experiências religiosas. Há espiritualidades menos centradas na culpa, há fé que impulsiona responsabilidade e não infantilização, há comunidades que produzem apoio real, não apenas medo. O tom de época, às vezes impregnado de um certo evolucionismo, também aparece: a ideia de que a humanidade estaria destinada a superar a religião como quem supera uma fase infantil. A história posterior mostrou uma realidade mais complexa: as religiões não desapareceram, pelo contrário, se reinventaram, e mesmo onde Deus parece ausente surgiram “quase religiões” laicas em torno da política, do corpo, do desempenho, do consumo. Nesse sentido, parte da expectativa freudiana de uma humanidade plenamente laica soa ingênua vista de hoje.

Mas se retiramos o excesso de generalização e a esperança de uma superação simples da fé, o coração do texto continua incrivelmente atual. Qualquer clínico que atenda pacientes obsessivos reconhecerá sem esforço a cena descrita por Freud: o sujeito esmagado por rituais de conferência, limpeza ou contagem, aterrorizado pela ideia de que um pequeno desvio poderá desencadear uma catástrofe, dilacerado por culpas frequentemente desproporcionais ao ato, tomado por pensamentos que ele mesmo considera “absurdos” ou “imperdoáveis”. Nesse terreno, a leitura freudiana segue fecunda: o ritual é uma tentativa desesperada de fazer laço entre um desejo recalcado e uma proibição interna severa, uma forma de negociar com uma instância superegóica implacável. Ver o ato obsessivo como compromisso entre desejo e lei, e não como simples irracionalidade, ainda muda a maneira de escutar e intervir.

O mesmo vale quando a religiosidade entra em cena. Ainda hoje chegam ao consultório sujeitos cuja experiência de fé é atravessada por um forte “escrúpulo religioso”: pessoas que rezam, confessam, pedem perdão e recomeçam em um ciclo exaustivo, mais movidas por pânico de errar do que por uma relação viva com o divino; pessoas que se atormentam com pensamentos considerados pecaminosos, que transformam qualquer dúvida em blasfêmia, que fazem da prática religiosa um campo de batalha interno. Nesses casos, a aproximação freudiana entre neurose obsessiva e ritual religioso se torna quase literal. A grande diferença, para nós hoje, é que podemos fazer essa leitura sem patologizar a fé em si. Em vez de dizer que “crer é doentio”, podemos perguntar o que, naquele sujeito, se tornou sintoma sob a forma de fé. Há pacientes cuja crença ajuda a sustentar a vida e a responsabilidade, e há pacientes cuja crença foi capturada pelo sintoma obsessivo. Distinguir uma coisa da outra é tarefa clínica, não ideológica.

Há ainda uma outra dimensão em que o texto de 1907 continua ecoando: a dos rituais laicos com lógica religiosa. Mesmo em sujeitos que se declaram totalmente descrentes, vemos a montagem de sistemas tão rígidos quanto qualquer devoção antiga. Ritmos de trabalho inumanos, rotinas de academia que não admitem falhas, dietas absolutas, regras de produtividade que funcionam como mandamentos: tudo isso pode ser vivido com a mesma lógica de pecado, culpa e expiação que Freud descreve na religião. Não há Deus, mas há um ideal tirânico de desempenho. Não há confissão sacramental, mas há uma autocrítica cruel e permanente. Não há pecado original, mas há a sensação de nunca ser suficiente. Quando olhamos por essa lente, percebemos que a intuição freudiana não se restringe ao campo religioso: ela nos dá instrumentos para ler uma série de práticas contemporâneas como rituais obsessivos socialmente valorizados, cujo objetivo é conter algo do desejo e da angústia sob a aparência de disciplina, saúde ou sucesso.

Talvez seja aqui que “Atos obsessivos e práticas religiosas” mostre sua força duradoura: ao convidar o clínico a olhar além da superfície, a não se satisfazer com a pergunta “é religioso ou não é?”, “é fé ou não é fé?”, e a deslocar o foco para outra questão, muito mais psicanalítica: que economia pulsional está sendo sustentada por este ritual, por esta crença, por esta prática? Que culpa se administra ali, que desejo é mantido à distância, que figura de pai ou de lei se encena nesses gestos repetidos? O que ficou no passado, nós podemos relativizar: a generalização apressada, o tom evolucionista, a falta de sensibilidade para aspectos criativos da fé. O que permanece vivo, nós reencontramos em cada paciente cuja vida está cercada por rituais, com ou sem Deus, e em cada sujeito que transformou o sagrado em compulsão ou a compulsão em sagrado. É nesse ponto que Freud 1907 deixa de ser apenas um texto histórico e volta a ser aquilo que interessa, de fato, à clínica: uma pergunta insistente sobre o que o sujeito faz com a sua culpa, com o seu desejo e com o seu medo, quando se ajoelha diante de um altar ou diante de suas próprias exigências internas.

Freud, S. (1907). Atos obsessivos e práticas religiosas.
Em: Freud, S. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (edição brasileira, ESB).

André Gasparini

Psicanalista e Hipnoterapeuta

11 92096-9928

Centro Comercial Alphaville - Calçada das Anêmonas, 20 - Alphaville, Barueri - SP, 06453-005, Brasil

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