Por que Freud ainda incomoda: o escândalo de continuarmos tão parecidos com o século XIX
Dizem que Freud é antigo, datado, que o mundo mudou, que hoje temos neurociência, psicofármacos, redes sociais e diagnósticos cada vez mais sofisticados. E, ainda assim, quando alguém se senta em um consultório e começa a falar de seus sonhos estranhos, da sensação de repetir sempre o mesmo erro, do amor que o destrói, da angústia que aperta o peito sem motivo aparente, o que volta à cena é exatamente o campo que Freud abriu. O que há de atual em Freud não é a moda das suas palavras nem a época em que escreveu, mas o fato incômodo de que a estrutura do sofrimento humano não mudou tanto quanto gostaríamos de acreditar.
Freud permanece atual, antes de tudo, porque ele levou a sério aquilo que a própria pessoa não domina em si. O inconsciente, tal como ele o formula, não é um porão exótico da mente, é o nome dado ao fato de que o sujeito fala mais do que sabe, faz mais do que quer, deseja mais do que admite. Em um tempo em que se promete controle sobre tudo, do humor ao desempenho, Freud lembra que há em cada um um resto que não se deixa domesticar, uma dimensão de desejo, de gozo e de conflito que escapa aos manuais de autoajuda e às explicações apressadas. Sonhos, lapsos, atos falhos, sintomas estranhos, tudo isso continua a acontecer diariamente, testemunhando que o inconsciente freudiano não é uma curiosidade histórica, é um compromisso com o real do sujeito.
Ele também continua atual porque não recuou diante da sexualidade. Quando Freud diz que a criança é sexuada, que a sexualidade não começa na puberdade, que o desejo humano não cabe em modelos morais prontos, ele abre uma frente que até hoje é incômoda. Em meio a debates contemporâneos sobre gênero, corpo, identidade, performance sexual, permanece contundente a ideia de que o sujeito não controla totalmente o que o excita, o que teme, o que o culpa. A sexualidade infantil, o Édipo, o recalcamento e o retorno do recalcado seguem oferecendo chaves de leitura finas para sintomas que aparecem hoje em outras roupagens, mas carregam a mesma marca de conflito entre o que se deseja e o que se acha aceitável desejar.
Há em Freud uma atualidade particular quando ele fala de repetição. Em Além do princípio de prazer, ao se debruçar sobre o estranho impulso de retornar ao desprazer, de se fixar em experiências dolorosas, de repetir encenações traumáticas, ele toca em algo que ainda vemos todos os dias. Quantas vezes alguém diz: eu sempre escolho o mesmo tipo de parceiro, eu sempre estrago tudo quando está indo bem, eu sei que me faz mal, mas eu volto. Freud não responde a isso com moralismo nem com a ilusão de que bastaria “pensar positivo”. Ele nomeia ali uma compulsão à repetição, uma espécie de fidelidade obscura a um traço de gozo, e convida o sujeito a se responsabilizar por isso na fala. Em um mundo viciado em soluções rápidas, esse convite ao trabalho de elaboração permanece escandaloso e necessário.
Outro ponto em que Freud se mostra espantosamente atual é em sua leitura do mal estar que atravessa a cultura. Em O mal estar na civilização, ele descreve o preço pago pela vida em sociedade: renúncia pulsional, sacrifício de gozos, submissão a ideais muitas vezes inatingíveis. As promessas de felicidade coletiva esbarram em uma frustração estrutural. Hoje, mudaram os nomes: falamos em burnout, ansiedade generalizada, exaustão produtiva, hiperconexão, mas a sensação de inadequação, culpa e fracasso diante de ideais esmagadores continua a mesma. O texto de 1930 soa desconfortavelmente atual ao mostrar como o sujeito se debate entre o desejo singular e as exigências de uma cultura que promete tudo e, ao mesmo tempo, cobra que se renuncie a quase tudo.
Na clínica, Freud permanece presente porque fundou uma ética da escuta. Em vez de dizer ao paciente quem ele é, ele deu lugar à associação livre, à palavra que se desdobra, ao tempo que o sujeito precisa para se ouvir. Em tempos de protocolos, checklists diagnósticos e tratamento em série, a insistência freudiana na singularidade de cada história é quase revolucionária. O que há de mais atual em Freud talvez seja essa recusa em reduzir a dor de alguém a um rótulo. A depressão, a ansiedade, as compulsões, os ataques de pânico ganham contornos muito diferentes quando colocados na trama de uma biografia, em sua relação com o desejo, com o modo como cada um foi falado, amado, proibido, abandonado, idealizado.
Há também uma atualidade discreta, mas fundamental, na maneira como Freud pensa o laço amoroso. Quando ele diz que amamos sempre a partir de marcas infantis, de identificações, de modelos inconscientes de escolha, ele antecipa algo que hoje vemos nos relacionamentos atravessados por idealizações, ciúmes, medo de abandono, relações parasitárias com o olhar do outro nas redes sociais. A lógica das escolhas amorosas não se explica apenas por compatibilidade, afinidades ou algoritmos de aplicativos, mas pela repetição de cenas, pela busca de um lugar na fantasia do outro, pelo enredo inconsciente em que cada um insiste em se colocar. Ler Freud à luz do amor contemporâneo não o torna obsoleto, pelo contrário, explicita como suas categorias continuam operando, mesmo quando o cenário muda.
Por fim, Freud permanece atual naquilo que nele não é doutrina, mas método. Ele mesmo advertia contra a canonização de suas ideias. O que ele legou à psicanálise não foi um catecismo, foi um modo de interrogar o sintoma, de desconfiar das evidências, de escutar o sujeito para além do que ele diz de si. Isso permite que Freud dialogue hoje com a neurociência, com a psiquiatria, com os estudos de gênero, com a filosofia, sem precisar ser defendido como verdade absoluta. O que há de atual em Freud é precisamente a força de sua pergunta: o que você faz com aquilo que o ultrapassa em você mesmo, com o que te angustia, com o que se repete na sua vida, com o que o faz sofrer e gozar ao mesmo tempo. Enquanto houver alguém disposto a sentar e falar seriamente disso, Freud continuará menos como busto em biblioteca e mais como presença silenciosa na escuta do analista.
Referências
Freud, S. A interpretação dos sonhos.
Freud, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade.
Freud, S. Além do princípio de prazer.
Freud, S. O ego e o id.
Freud, S. O mal estar na civilização.
Freud, S. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise.
André Gasparini
Psicanalista e Hipnoterapeuta
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