Entre o chão e a linguagem: o conflito social em O Livro das Ignorãças de Manoel de Barros
Há livros que não se limitam a ser lidos. Eles deslocam o leitor. O Livro das Ignorãças pertence a esse território. Aqui, o poeta rompe com a lógica do útil, do produtivo e do reconhecido socialmente. Ele se aproxima do que é desprezado, esquecido, pequeno. E é justamente nesse gesto que emerge um conflito profundo, não apenas social, mas também subjetivo.
O mundo contemporâneo valoriza o desempenho, a clareza, o saber técnico. Manoel de Barros caminha na direção oposta. Ele escreve:
“O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.”
Esse “transver” é um movimento que ultrapassa o visível e o normativo. Em termos subjetivos, trata-se de uma recusa em se submeter integralmente à ordem dominante do sentido. Há um deslocamento daquilo que seria esperado como “correto” para um território mais livre, mais primitivo, mais próximo da infância.
O conflito social: entre o útil e o inútil
O poeta frequentemente exalta aquilo que a sociedade descarta. Ele diz:
“Tenho abundância de ser feliz por isso.”
A felicidade aqui não está vinculada ao sucesso social, ao reconhecimento ou à produtividade. Ao contrário, ela nasce daquilo que não serve para nada. Esse é o ponto de tensão. A sociedade exige função. O sujeito, por sua vez, carrega um desejo que não se encaixa completamente nessa lógica.
Exemplo prático:
Um profissional altamente qualificado pode sentir um vazio constante, mesmo com estabilidade e reconhecimento. Ao mesmo tempo, encontra alívio em atividades consideradas “improdutivas”, como escrever, desenhar ou simplesmente contemplar. Esse descompasso revela um conflito entre o que se espera socialmente e aquilo que sustenta o desejo.
A linguagem como ruptura
Manoel de Barros também subverte a linguagem. Ele cria palavras, distorce sentidos, desmonta a gramática tradicional. Em um de seus versos:
“Desaprender oito horas por dia ensina os princípios.”
Desaprender, aqui, não é ignorância no sentido comum. É um retorno a um estado anterior à rigidez das normas. A linguagem deixa de ser apenas um instrumento de comunicação e passa a ser um campo de invenção.
Exemplo prático:
Uma pessoa que tenta expressar suas emoções pode sentir que “faltam palavras”. Isso ocorre porque a linguagem social disponível nem sempre dá conta da experiência subjetiva. O sujeito, então, improvisa, cria metáforas, hesita. Esse movimento revela a tensão entre o que se sente e o que pode ser dito.
A infância como território de verdade
O poeta frequentemente retorna à infância como um espaço de autenticidade. Não como nostalgia, mas como estrutura. A infância representa um tempo em que o sujeito ainda não está completamente capturado pelas exigências sociais.
“Tudo o que não invento é falso.”
Essa afirmação aponta para algo essencial: a verdade não está no fato bruto, mas na forma como ele é simbolizado. Inventar não é mentir, é produzir sentido.
Exemplo prático:
Uma criança transforma uma caixa em nave espacial. Para o olhar adulto, isso é fantasia. Para a criança, é realidade vivida. Na vida adulta, essa capacidade é frequentemente reprimida, gerando empobrecimento simbólico e sofrimento.
Considerações finais
O Livro das Ignorãças não oferece respostas. Ele desmonta certezas. Ao valorizar o inútil, o pequeno e o inventado, Manoel de Barros expõe o conflito entre o sujeito e as exigências sociais. Esse conflito não é algo a ser eliminado, mas escutado.
Há, nesse livro, um convite silencioso: sustentar aquilo que não se encaixa.
E talvez seja justamente aí que algo de verdade possa emergir.
André Gasparini
Psicanálise e Hipnoterapia
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