“Atos obsessivos e práticas religiosas” (1907)
1. Contexto do texto
“Atos obsessivos e práticas religiosas” é um texto relativamente curto de Freud, de 1907, em que ele:
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Descreve o funcionamento da neurose obsessiva
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Compara seus rituais aos rituais religiosos
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Propõe que a religião pode ser compreendida como uma espécie de neurose obsessiva da humanidade
É um ponto de partida importante para a crítica freudiana à religião, que depois será aprofundada em “O futuro de uma ilusão” e “O mal estar na civilização”.
2. O que são atos obsessivos para Freud
Freud descreve o quadro do neurótico obsessivo a partir de alguns traços centrais:
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Pensamentos obsessivos
Ideias intrusivas, repetitivas, muitas vezes absurdas ou moralmente incômodas, que o paciente reconhece como seus, mas sente como estranhos ou inaceitáveis. -
Atos obsessivos (rituais)
Sequências de ações rígidas, minuciosas, realizadas para prevenir uma desgraça, aliviar culpa ou neutralizar um pensamento.
Exemplo: lavar as mãos inúmeras vezes, checar portas, repetir fórmulas, seguir ordens específicas. -
Ambivalência afetiva
Amor e ódio misturados em relação às mesmas pessoas ou figuras de autoridade, o que gera culpas intensas e necessidade de expiação.
Para Freud, esses atos não são “manias sem sentido”, mas compromissos simbólicos que tentam conciliar desejo inconsciente e proibição moral.
3. A ponte com as práticas religiosas
Freud então coloca lado a lado:
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O ritual obsessivo do paciente
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Os rituais religiosos tradicionais, com suas regras, purificações, interdições e formas de expiação
Ele observa semelhanças importantes:
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Caráter minucioso e rígido
Tanto o obsessivo quanto o devoto seguem prescrições detalhadas, com medo de que qualquer falha traga culpa ou castigo. -
Ideia de culpa e purificação
No obsessivo, o ato ritual serve para aliviar uma culpa inconsciente, muitas vezes ligada à agressividade e à sexualidade.
Na religião, práticas de confissão, penitência, sacrifício, purificação ritual também lidam com culpa e pecado. -
Função de controle do desejo
Os rituais, em ambos os casos, funcionam como barreiras contra desejos considerados inaceitáveis.
O obsessivo luta contra seus impulsos com atos que ele mesmo reconhece como estranhos.
O religioso, através da prática ritual, mantém sob controle desejos e agressividades que a doutrina considera pecaminosos.
A partir daí, Freud aponta que a lógica estrutural da neurose obsessiva e das práticas religiosas tem pontos de contato importantes.
4. Religião como neurose obsessiva da humanidade
É nesse texto que aparece a formulação que depois será retomada em obras posteriores: a religião como neurose obsessiva universal.
O que isso quer dizer:
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Assim como o neurótico obsessivo inventa rituais para lidar com culpas e desejos recalcados
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A humanidade teria criado sistemas religiosos com ritos, mandamentos e proibições para dar forma a angústias, culpas e desejos que ela não consegue assumir
A fé, nessa leitura, não é apenas crença em Deus, mas também:
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Um modo coletivo de tratar a culpa
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Uma forma organizada de lidar com impulsos agressivos e sexuais
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Um conjunto de ritos que alivia a angústia ao custo de uma submissão à lei religiosa
Esse é um dos pilares da visão freudiana posterior: a religião como sintoma cultural, não apenas como sistema de crenças.
5. Importância clínica e teórica do texto
Esse escrito de 1907 é importante por vários motivos:
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Na clínica
Ele ajuda a compreender por que certos pacientes constroem rituais tão rígidos e por que a quebra de um detalhe mínimo pode gerar tanto pânico e culpa.
Mostra que, por trás do ato, há uma lógica, ainda que inconsciente. -
Na teoria da religião
Ele prepara o terreno para a tese de que a religião trabalha com o mesmo material que a neurose:
desejo recalcado
culpa
ambivalência em relação à figura paterna
necessidade de proteção e castigo -
Na questão da fé
A fé religiosa aparece menos como adesão livre a uma verdade, e mais como resposta ao desamparo e à culpa, organizada em forma de doutrina e ritual.
6. Limites e alcances da comparação
É importante notar que Freud:
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Não diz que todo religioso é neurótico obsessivo
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Usa a analogia estrutural para iluminar um lado da religião
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Abre uma via de leitura da fé como fenômeno psíquico, sem discutir a existência ou não de Deus em termos metafísicos
Para quem trabalha com psicanálise, esse texto é valioso porque:
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Permite interrogar o lugar que a religião ocupa na economia psíquica de cada sujeito
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Ajuda a perceber quando a fé está a serviço da vida e quando funciona como pura defesa obsessiva, rígida e culpígena
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Convida a escutar, no modo como o paciente fala de Deus, da culpa e do pecado, o eco da relação com o pai, com a lei e com o próprio desejo
Referência
Freud, S. (1907). Atos obsessivos e práticas religiosas.
Em: Freud, S. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud (edição brasileira, ESB).
André Gasparini
Psicanalista e Hipnoterapeuta
11 92096-9928
Centro Comercial Alphaville - Calçada das Anêmonas, 20 - Alphaville, Barueri - SP, 06453-005, Brasil
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