Depressão para Lacan: quando o sujeito se apaga diante do desejo
Quando penso a depressão a partir de Lacan, sou levado a romper com a ideia de que ela se resume a tristeza, falta de energia ou desequilíbrio interno. Para mim, a depressão não é um estado de humor, é uma posição subjetiva. Ela aparece quando o sujeito se retira do campo do desejo, quando abdica de sustentar sua própria falta e passa a se confundir com um vazio sem borda. Em Lacan, a depressão não é simplesmente sofrer demais, é, muitas vezes, não querer saber mais nada do próprio desejo.
O que me provoca na leitura lacaniana é que a depressão não se explica por um excesso de angústia, mas por sua ausência. A angústia, para Lacan, é um afeto que orienta, que indica que algo do real está em jogo. Já na depressão, frequentemente encontro o contrário, um amortecimento, um esvaziamento, uma queda do investimento libidinal que não aponta para lugar algum. O sujeito deprimido não está tomado por perguntas, ele está paralisado diante delas. Não se angustia porque já desistiu de desejar.
Lacan me ensina que a depressão pode ser lida como efeito da recusa do inconsciente. O sujeito sabe, mas não quer saber. Ele se afasta do trabalho da palavra, do conflito, da divisão que o constitui. Em vez de sustentar a falta, tenta colá la a si mesmo. O resultado é devastador, porque quando o sujeito se identifica com o nada, com a inutilidade ou com o fracasso, ele não sofre apenas por algo que perdeu, ele sofre por acreditar que ele próprio é essa perda.
Na clínica, vejo como a depressão se articula ao supereu lacaniano, que não proíbe, mas exige. Exige gozo, desempenho, felicidade, completude. Diante dessa exigência impossível, o sujeito pode responder não com rebeldia, mas com desistência. A depressão surge como uma saída silenciosa frente à violência desse imperativo. Em vez de tentar corresponder, o sujeito cai fora do jogo. Não joga, não deseja, não espera. Mas essa retirada tem um preço alto, o apagamento de si.Outro ponto central para mim é que, em Lacan, a depressão não é efeito de falta de amor, mas de um curto circuito com o desejo do Outro. O sujeito vive em função do que acredita que o Outro espera, e quando isso se revela insustentável, ele não encontra um desejo próprio para se apoiar. A depressão aparece então como colapso das identificações imaginárias que sustentavam o eu. O sujeito não sabe mais quem é, porque nunca se autorizou a ser a partir de si.
Pensar a depressão com Lacan me impede de buscar soluções de fortalecimento do ego ou discursos de valorização pessoal. Dizer ao sujeito deprimido que ele é capaz, valioso ou suficiente, muitas vezes apenas reforça a exigência superegoica que o adoece. A saída, se há, passa por recolocar o desejo em cena, não como ideal, mas como falta. Trata se de permitir que o sujeito volte a se dividir, a falar, a se implicar, mesmo sem garantias.
Para mim, a depressão, na teoria lacaniana, é um sinal de que o sujeito se afastou demais de sua própria verdade. Ela não é covardia, nem fraqueza moral. É uma resposta extrema à impossibilidade de sustentar o desejo em um mundo que exige gozo constante e sentido imediato. A clínica, então, não visa eliminar a depressão a qualquer custo, mas criar as condições para que o sujeito possa, pouco a pouco, voltar a desejar, mesmo que isso implique angústia, conflito e falta. Porque, para Lacan, é melhor um sujeito angustiado do que um sujeito apagado.
Referências
Lacan, J. O seminário, livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: Zahar.
Lacan, J. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
Lacan, J. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
Lacan, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
Gasparini, A. Quando a Angústia fala.
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