Depressão: quando a dor não se cala e o eu se volta contra si

 Quando penso a depressão a partir de Freud, sou levado a abandonar imediatamente a ideia confortável de que se trata apenas de um desequilíbrio, de uma tristeza sem causa ou de um mau funcionamento do indivíduo. Em Freud, a depressão não é um simples estado de ânimo rebaixado. Ela é um drama psíquico profundo, silencioso e, muitas vezes, devastador, no qual algo do amor, da perda e da agressividade se volta contra o próprio sujeito.

Freud nunca usou o termo “depressão” tal como o fazemos hoje, mas quando descreve a melancolia, ele nos oferece uma das leituras mais contundentes sobre esse sofrimento. O que me chama atenção é que, para Freud, o sofrimento melancólico não nasce apenas da perda de um objeto amado, mas da forma como essa perda é tratada pelo aparelho psíquico. Diferentemente do luto, em que o mundo fica empobrecido, na melancolia é o próprio eu que se empobrece. O sujeito não diz apenas “perdi alguém” ou “perdi algo”. Ele passa a dizer, ainda que de forma inconsciente, “eu sou essa perda”.

Na clínica, isso é decisivo. O deprimido não sofre apenas porque algo lhe faltou, mas porque essa falta foi incorporada ao eu. Freud mostra que, na melancolia, ocorre uma identificação radical com o objeto perdido. O ódio, a frustração e a agressividade que antes eram dirigidos ao objeto voltam-se agora contra o próprio sujeito. É por isso que a depressão freudiana carrega essa violência silenciosa, essa autocrítica implacável, essa sensação de indignidade e culpa sem medida. O eu torna-se réu, juiz e carrasco de si mesmo.

Quando leio Freud, percebo o quanto a depressão desmente a ideia de passividade. Há uma atividade intensa no sofrimento depressivo, ainda que voltada para dentro. O supereu, nessa configuração, aparece como uma instância cruel, que acusa, exige e pune sem cessar. O sujeito deprimido não descansa nem quando parece apático. Ele está preso a um trabalho psíquico incessante de autodepreciação, como se precisasse pagar uma dívida que nunca se encerra.

Outro ponto que considero provocador na teoria freudiana é o vínculo entre depressão e ambivalência. Freud nos mostra que não se ama sem odiar e que não se odeia sem amar. Na melancolia, essa ambivalência não encontra saída simbólica. O amor pelo objeto perdido impede o desligamento, enquanto o ódio exige punição. O resultado é um eu aprisionado, que sofre em nome de um vínculo que não pode ser abandonado. A depressão, nesse sentido, é fidelidade extrema a um objeto que já não está, mas que continua governando o sujeito por dentro.

Pensar a depressão com Freud também me impede de tratá-la como algo a ser simplesmente eliminado. Não porque o sofrimento deva ser romantizado, mas porque ele carrega uma lógica, uma história e uma verdade subjetiva. A depressão fala de perdas não elaboradas, de identificações que aprisionam, de agressividades que não puderam ser simbolizadas. Silenciá-la sem escutá-la é correr o risco de reforçar exatamente aquilo que a sustenta.

Freud nos ensina que a saída não está em convencer o sujeito de seu valor ou em corrigir suas ideias negativas, mas em permitir que esse circuito inconsciente seja, pouco a pouco, colocado em palavras. Onde antes havia uma acusação muda contra o eu, pode surgir um discurso sobre a perda, sobre o amor, sobre o ódio e sobre o desejo. É nesse deslocamento que algo do sofrimento pode, enfim, encontrar outra forma de existência.

Para mim, olhar a depressão pela via freudiana é aceitar que ela não é um erro do sujeito, mas uma resposta psíquica extrema a impasses afetivos profundos. É também reconhecer que, por trás do silêncio depressivo, há um conflito vivo, insistente e doloroso, esperando não por correção, mas por escuta.

Gasparini, A. Quando a Angústia fala.

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Referências

Freud, S. Luto e melancolia. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. Inibição, sintoma e angústia. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. O eu e o id. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.

Freud, S. Conferências introdutórias à psicanálise. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago.

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