Freud e a fé, entre ilusão religiosa e confiança no inconsciente

Quando se fala em Freud e fé, é comum pensar apenas em sua crítica à religião. De fato, ele se declara descrente e lê a fé religiosa como ilusão. No entanto, a palavra “fé” em Freud aparece em dois campos distintos e tensos entre si

  1. Fé como crença religiosa, ligada ao desamparo e à figura do pai

  2. Fé como confiança, que reaparece na transferência e no próprio exercício da psicanálise

Fazer justiça à posição freudiana significa considerar esses dois planos ao mesmo tempo.


1. Fé religiosa, ilusão e desamparo

Em “O futuro de uma ilusão” (1927), Freud trata diretamente da religião e da fé em Deus. Ele parte da experiência do desamparo infantil

  • A criança é frágil, depende radicalmente dos pais

  • Encontra no pai e na mãe proteção, explicação e amparo diante do medo

  • Essa experiência de desamparo marca o psiquismo

Na vida adulta, diante da angústia diante da morte, da natureza e do acaso, o sujeito revive, em outro nível, esse desamparo primordial. A fé religiosa aparece então como uma resposta

  • Deus ocupa o lugar de um pai engrandecido, que ama, protege, pune e tudo sabe

  • A crença religiosa oferece consolo, sentido, promessa de justiça e de recompensa

  • A fé se apoia, segundo Freud, mais na força do desejo do que em provas racionais

Por isso ele chama a religião de ilusão. Importante lembrar que, em Freud, “ilusão” não quer dizer apenas mentira qualquer, mas crença fundada na realização de um desejo. Pode até ser verdadeira na realidade, mas é sustentada como verdadeira porque se deseja intensamente que seja assim.

Em textos como “Atos obsessivos e práticas religiosas” (1907), ele compara rituais religiosos com rituais obsessivos, sugerindo que a fé religiosa funciona como uma espécie de neurose obsessiva coletiva, que canaliza culpas e angústias por meio de dogmas e práticas.

Assim, no plano da religião, a fé para Freud é antes de tudo um fenômeno psíquico

  • Enraizado na infância

  • Marcado pelo desamparo

  • Organizado em torno da figura paterna e da lei


2. Freud, fé e civilização

Em “O mal estar na civilização” (1930), Freud mostra que a cultura exige renúncia pulsional, sacrifícios, obediência a normas. Viver em sociedade custa caro do ponto de vista do desejo.

A fé religiosa, neste contexto, cumpre funções precisas

  • Dá um fundamento transcendente à moral e à lei

  • Oferece recompensa futura para renúncias presentes

  • Atribui sentido ao sofrimento inevitável da vida

Freud reconhece que essa fé teve papel civilizatório, ajudando a conter a violência e dar coesão aos grupos. Ao mesmo tempo, ele vê aí um preço

  • O sujeito permanece infantilizado, sempre sob o olhar de um Pai absoluto

  • A responsabilidade é deslocada para fora, para Deus ou para a providência

  • A fé pode servir para impedir um confronto mais maduro com a finitude e o trágico

Por isso, sua posição é claramente crítica. Ele sonha com uma humanidade capaz de sustentar uma ética sem precisar apoiar tudo em uma fé religiosa.


3. Freud era sem fé em tudo? Fé, ciência e psicanálise

Ser descrente em termos religiosos não significa que Freud não fale de fé em outro sentido. Há uma diferença importante entre

  • Fé religiosa, ligada a dogmas e revelações

  • Confiança, ou fé humana, na pesquisa, na palavra e na experiência analítica

Freud aposta em uma espécie de fé racional

  • Fé no método científico, na observação, na possibilidade de construir um saber a partir da experiência

  • Fé de que o inconsciente tem uma lógica, e que sintomas, sonhos e atos falhos não são absurdos, mas carregados de sentido

  • Fé de que o trabalho analítico pode produzir transformação, alívio e algum grau de esclarecimento para o sujeito

Em “Análise leiga” (1926), por exemplo, ao defender a psicanálise de críticas externas, ele demonstra uma confiança firme na experiência clínica acumulada, em seus resultados e em sua coerência interna. Não é fé cega, mas uma posição que combina ceticismo religioso com confiança na razão, na escuta e na prática clínica.


4. Fé e transferência: o paciente precisa acreditar em quê?

Na prática analítica, a fé reaparece de outro modo, mesmo que Freud não use sempre essa palavra. O tratamento só se instala quando o paciente

  • Acredita que há algo em seus sintomas que pode ser compreendido

  • Acredita que vale a pena falar

  • Acredita que o analista, de algum modo, pode ajudar

Essa confiança inicial lembra uma fé em alguém, não uma fé religiosa, mas uma fé na figura do analista e na própria psicanálise. Freud chama a estrutura que sustenta isso de transferência

  • O paciente transfere ao analista expectativas, fantasias, imagens de figuras parentais

  • Acredita que o analista sabe algo sobre seu sofrimento

  • A relação de confiança é ao mesmo tempo condição e campo de trabalho da análise

Curiosamente, o mesmo Freud que critica a fé religiosa como ilusão reconhece que o trabalho analítico se apoia, em parte, em uma fé do paciente na palavra do analista e no processo. A diferença é que, na psicanálise, o objetivo é que o sujeito saia dessa posição de dependência e se aproprie de seu próprio desejo, enquanto a fé religiosa tende a manter o sujeito em uma relação infantil com o divino.


5. Uma síntese possível: entre crítica à fé religiosa e ética da confiança

Podemos condensar a posição freudiana assim

  • Freud é pessoalmente sem fé religiosa, crítico das crenças dogmáticas e das visões de mundo providencialistas

  • Ele lê a fé religiosa como ilusão necessária, produto do desamparo e da história infantil, que teve e tem função cultural importante

  • Ao mesmo tempo, ele trabalha com uma outra forma de fé, mais próxima de confiança

    • Fé do analisando na eficácia da fala e da escuta

    • Fé do analista na existência de uma lógica do inconsciente

    • Fé de ambos na possibilidade de elaborar algo do sofrimento por meio da palavra

Para a psicanálise que se segue a Freud, pensar “fé” a partir dele implica não apenas dizer se ele era crente ou descrente, mas perguntar

Em que o sujeito deposita sua fé, sua confiança, sua aposta
Em Deus, no pai, no analista, na ciência, no amor, em si mesmo

E o que essa escolha revela sobre sua história de desejo, de desamparo e de laço com o Outro.


Referências principais

  • Freud, S. (1907). Atos obsessivos e práticas religiosas.

  • Freud, S. (1927). O futuro de uma ilusão.

  • Freud, S. (1930). O mal estar na civilização.

  • Freud, S. (1939). Moises e o monoteísmo.

  • Freud, S. (1926). Análise leiga.

  • Correspondência com Oskar Pfister e outros, na qual Freud comenta sua posição descrente e sua leitura psicológica da religião e da fé.


    André Gasparini

    Psicanalista e Hipnoterapeuta

    11 92096-9928

    Centro Comercial Alphaville - Calçada das Anêmonas, 20 - Alphaville, Barueri - SP, 06453-005, Brasil

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