Lacan?

No Quando a Angústia fala, a teoria de Lacan não aparece para mim como algo a ser explicado ou demonstrado, mas como uma posição clínica que sustento ao longo de toda a escrita. Eu não uso Lacan como um repertório de conceitos expostos de forma didática. Uso Lacan como orientação ética, como bússola diante da angústia do sujeito. Isso é uma escolha deliberada, porque a angústia, tal como a compreendo, não se resolve no plano da explicação, mas no modo como é escutada.

Parto da concepção lacaniana de que a angústia não é sem objeto, ainda que esse objeto não se deixe nomear facilmente. No livro, faço questão de não localizar a angústia em acontecimentos isolados ou em causas externas diretas. Ela surge quando algo do real irrompe e faz vacilar as amarras simbólicas que até então organizavam a vida do sujeito. Quando escrevo sobre a angústia, escrevo sobre esse ponto de ruptura, onde o eu já não consegue sustentar suas certezas e o sujeito se vê diante de algo que escapa ao controle.

Minha escolha teórica também se revela na recusa de colocar o eu no centro da clínica. Em Quando a Angústia fala, não proponho fortalecer o ego nem oferecer estratégias de adaptação. Ao contrário, mostro como o eu frequentemente participa do silenciamento da angústia, tentando normalizá-la ou traduzi-la rapidamente em explicações. Sustento a ideia, profundamente lacaniana, de que a angústia desorganiza o eu para que algo do sujeito possa emergir. Esse desarranjo não é um erro, é uma passagem necessária.

Outro ponto essencial da presença de Lacan no livro é a primazia que dou à escuta. Não escrevo para interpretar a angústia do leitor, nem para dizer o que ela significa. Escrevo para sustentar um espaço onde a angústia possa falar sem ser imediatamente interrompida por soluções prontas. Essa posição se apoia diretamente no ensino de Lacan, especialmente quando ele afirma que a angústia é um afeto que orienta a clínica. Para mim, ela indica onde não se deve avançar com pressa, mas onde é preciso escutar com mais rigor.

O desejo atravessa todo o livro, ainda que nem sempre seja nomeado explicitamente. A angústia aparece, muitas vezes, como efeito de uma vida vivida em excesso para o Outro, marcada pela tentativa constante de corresponder, de atender expectativas, de sustentar ideais que não são próprios. Ao escrever sobre isso, sustento a distinção lacaniana entre desejo, demanda e necessidade. A angústia emerge quando o desejo é silenciado ou confundido com aquilo que se espera do sujeito.

Por fim, até a forma do texto carrega essa herança lacaniana. Não escrevo para fechar sentidos ou oferecer conclusões definitivas. Deixo espaços, intervalos, silêncios. Permito que o leitor não compreenda tudo de imediato, porque acredito que é justamente aí que algo pode operar. Minha escrita tenta respeitar o tempo do sujeito, o tempo da angústia e o tempo da palavra. Lacan, para mim, não está no livro como citação constante, mas como presença estrutural. Quando a Angústia fala não explica Lacan. Ele se escreve a partir dele.


Gasparini, A. Quando a Angústia fala.


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