Nada começa do zero: como os restos do dia viram matéria-prima do sonho em Freud

 Há quem acorde de um sonho absurdo e diga que aquilo veio “do nada”. Freud, no Capítulo V de A interpretação dos sonhos, dedica-se justamente a desmontar essa ideia confortável. Para ele, nada no sonho vem do nada. O enredo onírico pode ser estranho, deformado, fantástico, mas seus tijolos são sempre retirados de experiências reais, de lembranças, de impressões recentes e antigas. É nesse trecho, ao falar das fontes do sonho e dos restos diurnos, que Freud aproxima o sonho de uma cena que todos podem reconhecer: os acontecimentos do dia que não se encerram no pôr do sol, mas continuam ressoando na noite, misturados a ecos de uma infância que nunca acabou de fato.

Freud parte de algo simples e quase óbvio, mas que poucos levam a sério. Quando se examina um sonho com atenção, quase sempre se encontram elementos ligados ao dia anterior, à véspera, a conversas recentes, a preocupações que ainda estavam em curso ao adormecer. É daí que vem a expressão restos diurnos. São situações inacabadas, pequenos contratempos, cenas que nos afetaram mais do que percebemos, notícias lidas de passagem, impressões que ficaram em suspenso. O sujeito, apressado, costuma dizer: foi coisa do meu dia, como se isso bastasse para explicar. Freud aceita o ponto de partida, mas responde com outra pergunta: por que justamente esses restos, entre tantos, foram escolhidos para servir de material ao sonho. Por que aquela frase, aquele rosto, aquela cena da véspera se destacaram dentro de um mar de estímulos e reapareceram na noite.

É aí que o texto ganha densidade. Os restos diurnos, para Freud, não são a causa do sonho no sentido forte, são a ocasião, o gatilho, o material mais fresco à disposição. Como a superfície de um lago que reflete as luzes mais próximas, o sonho se deixa atravessar pela vida imediata, mas o que realmente o move vem de camadas mais profundas. Sob a experiência do dia há desejos antigos, conflitos perenes, lembranças infantis recalcadas que encontram nesses restos uma chance de tomar forma. O dia oferece a linguagem, os personagens, cenários e frases; o desejo inconsciente oferece o roteiro secreto. Quando os dois se encontram, o sonho acontece. O que é vivido hoje se torna o figurino com que se vestem dramas muito mais antigos.

Freud mostra, com exemplos, que muitas vezes um detalhe aparentemente banal do dia anterior é, na verdade, um ponto de contato com uma lembrança muito mais remota. Uma palavra ouvida na rua desperta, sem que o sujeito perceba, a memória de uma frase dita na infância; um rosto encontrado rapidamente carrega traços de alguém já esquecido; uma situação de trabalho reatualiza a velha posição da criança diante dos pais e da autoridade. Esses encadeamentos não são conscientes. É no sonho que se vê a trama: uma cena recente, aparentemente sem importância, é ampliada, distorcida, dramatizada muito além de seu peso real. Essa desproporção é o sinal de que, por trás do resto diurno, um conteúdo infantil recalcado se acoplou, aproveitando a passagem para infiltrar-se na cena onírica. O sonho, então, é menos sobre o evento da véspera e mais sobre a ferida antiga que ele tocou.

Essa articulação entre o dia e a infância é um dos pontos mais didáticos do capítulo. Ela permite mostrar ao aluno, ou ao paciente, que o sonho não é um corpo estranho que cai de um outro mundo, mas também não é uma simples repetição fotográfica do que se viveu acordado. Ele é fabricação. Usa fragmentos do presente para montar um cenário em que o passado lateja. Quando Freud analisa com seus pacientes a origem dos elementos de um sonho, ele os leva a reconhecer primeiro as relações com o dia anterior e, depois, a seguir as associações até cenas muito mais antigas, frequentemente esquecidas, que de repente se ligam àquilo. O momento em que alguém percebe que um sonho que parecia falar apenas de um problema de trabalho toca, na verdade, a velha sensação de humilhação diante de um pai severo é precisamente o momento em que se evidencia a lógica das fontes do sonho.

Outro ponto importante que Freud enfatiza é que o sonho não se limita ao “ontem”, mas também não se desvincula dele. As experiências recentes têm um privilégio na construção onírica, porque a excitação ligada a elas ainda está viva, disponível, pedindo algum tipo de elaboração. Só que essa elaboração não é neutra, ela é atravessada pela história anterior do sujeito. Por isso, dois indivíduos que viveram o mesmo acontecimento diurno podem ter sonhos completamente diferentes a partir dele. O mesmo fato exterior funciona como resto diurno para roteiros internos diversos. Em um, desperta o desejo de vingança; em outro, o medo de perder o amor; em um terceiro, uma fantasia de reparação grandiosa. A atualidade da experiência e a antiguidade do desejo se encontram no mesmo palco.

Ao falar das fontes, Freud está também combatendo duas ilusões opostas. Contra os que pensam que o sonho é uma revelação mística desconectada da vida cotidiana, ele insiste na presença de restos diurnos, na continuidade entre dia e noite, no fato de que o psiquismo trabalha com aquilo que viveu. Contra os que reduzem o sonho a digestão de estímulos da véspera, ele aponta para a insistência das lembranças infantis, para a reativação de cenas remotas, para a repetição de conflitos primitivos. O sonho é ao mesmo tempo extremamente concreto e profundamente enraizado no passado. Ele cola o agora e o então na mesma superfície sensível, oferecendo ao analista um mapa vivo das ligações singulares que cada sujeito construiu entre o que vive e o que viveu.

É por isso que este trecho de A interpretação dos sonhos é tão útil em sala de aula e no consultório. Ele permite ao estudante ver como o método freudiano não se contenta com interpretações vagas, mas exige reconstruir pacientemente o caminho entre o evento diurno e a lembrança infantil, entre o fragmento de ontem e a ferida de antes. E permite ao paciente perceber que, ao contar um sonho, ele está oferecendo não um enigma abstrato, mas uma via privilegiada para articular o que o afeta hoje com aquilo que o constituiu lá atrás. Nada começa do zero. Quando Freud fala dos restos diurnos e das fontes do sonho, ele está dizendo, em última instância, que o sonho é o lugar em que o dia e a infância se reencontram para que o desejo inconsciente, sempre atual, possa continuar insistindo.

Referências

Freud, S. A interpretação dos sonhos.
Freud, S. Conferências introdutórias sobre psicanálise.

André Gasparini

Psicanalista e Hipnoterapeuta

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Centro Comercial Alphaville - Calçada das Anêmonas, 20 - Alphaville, Barueri - SP, 06453-005, Brasil

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