Quando descobrimos que o “eu” é plural: a virada sociológica da Psicologia Social
A história da Psicologia Social costuma ser contada como se começasse em laboratórios, com experimentos sobre influência, conformidade e atitudes. Mas há uma outra narrativa, menos domesticada, que nasce não no laboratório isolado, e sim na rua, na fábrica, no sindicato, na escola, no bairro. É a história da Psicologia Social de matriz sociológica, aquela que se pergunta o tempo todo não “o que se passa dentro da cabeça do indivíduo”, mas “como esse indivíduo se torna o que é, ao participar de grupos, classes, instituições, movimentos e culturas específicas”. Nessa vertente, o sujeito não é ponto de partida pronto, é o ponto de chegada de múltiplos pertencimentos. O “eu” é pensado a partir dos “nós” que o atravessam.
Logo no fim do século XIX e início do XX, enquanto a psicologia nascente buscava se afirmar como ciência experimental, sociólogos e pensadores do social já estavam fascinados pelo comportamento das multidões, das massas, dos grupos. Durkheim, por exemplo, insistia que fatos sociais têm uma consistência própria, que não se reduzem à soma de consciências individuais. Tarde e Le Bon observavam como as pessoas pareciam pensar e agir de outro modo quando estavam em coletividade, como se houvesse uma mente social, com suas paixões e impulsos. Do outro lado do Atlântico, a escola de Chicago, com autores como Mead e Cooley, começava a formular uma ideia que se tornaria central para a psicologia social sociológica: o “eu” é produto de interação, emerge da internalização dos olhares e expectativas do outro, é reflexivo por natureza. Não existe identidade sem espelho social, sem um “outro generalizado” que oferece linguagem, normas, papéis e lugares.
Essa tradição não se contenta em estudar o indivíduo isolado, submetido a estímulos neutros. Ela olha para o sujeito em situação, inserido em redes de pertencimento, marcado por classe social, gênero, raça, religião, trabalho, território. A pergunta que a orienta é: como esses marcadores, tomados historicamente, modelam formas de sentir, de pensar, de desejar e de sofrer. Daí a aproximação natural com as ciências sociais sociologia, antropologia, ciência política. A psicologia social sociológica se constrói em diálogo com análises de instituições, de movimentos sociais, de ideologias, de discursos coletivos. Não trata o contexto como simples cenário, mas como força constitutiva. Não é por acaso que, no século XX, ela ganhará força em países onde a questão social é gritante, como os contextos latino americanos, em que pensar o sujeito sem pensar desigualdade e opressão seria uma espécie de cegueira teórica.
Enquanto a psicologia social de orientação mais psicológica, especialmente a de tradição norte americana, consolidava uma metodologia centrada em experimentos controlados, escalas, atitudes e processos básicos de percepção social, a vertente sociológica insistia em um foco reflexivo, crítico, atento às ideologias e relações de poder. Ela pergunta, por exemplo, quem define o que é “normal” e “desviante”, quais interesses são servidos quando se naturaliza determinado comportamento, como categorias de raça, gênero e classe são produzidas e reproduzidas nas práticas cotidianas. Esse olhar não recua diante de temas como dominação, resistência, alienação, hegemonia, e se aproxima de autores como Marx, Gramsci, Weber, Bourdieu, Foucault, além dos clássicos da sociologia. O indivíduo, aqui, é visto como atravessado por discursos e estruturas, mas também como capaz de refletir sobre eles, de resistir, de se organizar coletivamente.
Na segunda metade do século XX, essa psicologia social sociológica ganha contornos mais afirmados quando surgem propostas explicitamente críticas, comunitárias e latino americanas. Em vários países, pesquisadores e profissionais começam a questionar a importação acrítica de modelos experimentais norte americanos, que pareciam pouco sensíveis às condições de pobreza, autoritarismo, violência política e desigualdade extrema. Surge então uma psicologia social comprometida com movimentos populares, com a saúde coletiva, com a educação, com os direitos humanos. Estudos passam a ser feitos em escolas públicas, favelas, assentamentos, serviços de saúde mental, movimentos de mulheres, lutas antirracistas. A ideia de que o pesquisador poderia permanecer neutro vai sendo substituída por uma postura de implicação, em que teoria e prática social se alimentam mutuamente.
Do ponto de vista conceitual, isso se traduz em categorias que só fazem sentido se articuladas com as ciências sociais: identidade social, representações sociais, papéis e normas de grupo, estigma, preconceito, exclusão, participação política, cidadania. A psicologia social sociológica pergunta como um jovem periférico constrói sua autoimagem a partir de discursos midiáticos que o criminalizam, como mulheres naturalizam ou questionam relações de poder em suas famílias e trabalhos, como trabalhadores internalizam a ideologia do mérito ou descobrem a linguagem dos direitos, como moradores de uma comunidade negociam pertencimentos religiosos, étnicos e territoriais. Em todos esses exemplos, o indivíduo é sempre pensado em relação. A subjetividade é produto de tramas sociais concretas, não de um “interior” abstrato.
O caráter reflexivo dessa vertente também se expressa no modo como ela pensa a própria psicologia. Não se trata apenas de estudar “o outro”, mas de interrogar o lugar de quem pesquisa e intervém. Quais são as marcas sociais do psicólogo, de que lado ele fala, como seu saber pode ser usado para manter o status quo ou para questioná lo. Essa autocrítica aproxima a psicologia social sociológica de debates sobre descolonização do conhecimento, epistemologias do Sul, produção de saberes situados. Em vez de buscar uma universalidade abstrata, ela valoriza o enraizamento histórico e cultural das teorias, reconhecendo que modelos produzidos em contextos de bem estar social, brancura e estabilidade democrática não se transplantam automaticamente para realidades atravessadas por outras dores.
Em sala de aula, trabalhar a história dessa psicologia social sociológica é mostrar aos estudantes que existem duas tradições dialogando e, às vezes, tensionando se dentro do mesmo campo. Uma mais experimental, individualista, próxima da psicologia geral, outra mais crítica, coletiva, próxima da sociologia. Não se trata de escolher uma e descartar a outra, mas de reconhecer que, quando olhamos para fenômenos como preconceito, violência, participação política, movimentos sociais, sofrimento ligado ao trabalho ou à pobreza, a lente sociológica torna visível aquilo que a lente estritamente individual tende a apagar. Ela lembra que não existe “personalidade” sem história social, não existe “atitude” sem discurso, não existe “decisão” sem estrutura de oportunidades e constrangimentos.
No limite, a psicologia social de matriz sociológica nos devolve uma verdade incômoda e libertadora: aquilo que vivemos como mais íntimo, nossos medos, nossos desejos, nossos modos de amar e de odiar, está sempre bordado com fios coletivos. A família é instituição, a escola é política pública, o trabalho é relação de produção, o bairro é história urbana, a igreja é campo de poder e de sentido. Pensar o indivíduo apenas a partir de dentro é amputar metade de sua realidade. É por isso que essa tradição insiste em articular, sem medo, psicologia com ciências sociais. Porque, no fundo, o que ela nos conta na sua breve história é que o “eu” só se compreende de verdade quando aceitamos que ele sempre foi muitos.
Referências
Durkheim, É. As regras do método sociológico.
Mead, G. H. Espírito, pessoa e sociedade.
Cooley, C. H. Human nature and the social order.
Moscovici, S. Representações sociais: investigações em psicologia social.
Lane, S. T. M., & Codo, W. Psicologia social: o homem em movimento.
Bock, A. M. B. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia.
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