Quando Freud vira o sonho do avesso e mostra o aparelho psíquico funcionando
Até o Capítulo VII de A interpretação dos sonhos, Freud havia nos levado pela mão dentro do próprio sonho: restos diurnos, realização de desejo, censura, condensação, deslocamento, figurabilidade, elaboração secundária. Víamos o sonho por dentro, como se acompanhássemos o trabalho de um artesão noturno, dobrando e recortando pensamentos até transformá los em cenas enigmáticas. Mas em determinado momento ele faz um movimento decisivo: afasta se do sonho isolado e se pergunta que tipo de máquina psíquica é capaz de produzir tudo isso. É aí que começa a psicologia dos processos oníricos. O sonho deixa de ser apenas um objeto clínico e se torna uma janela privilegiada para enxergar o aparelho psíquico em funcionamento, com seus sistemas inconsciente, pré consciente e consciente e seus jogos de energia circulando, desviando se, encontrando obstáculos e saídas.
Freud retoma, neste trecho, uma intuição que já aparecia no Projeto para uma psicologia científica: a ideia de que a vida psíquica se organiza em sistemas ou camadas, comunicantes mas não idênticas. Em A interpretação dos sonhos, essa topografia ganha contornos mais nítidos. Ele propõe pensar o aparelho em pelo menos três sistemas articulados: o inconsciente, onde residem as representações recalcadas, os desejos infantis, o material excluído da consciência; o pré consciente, zona intermediária em que os pensamentos podem tornar se conscientes sob certas condições; e o consciente, a superfície iluminada da experiência, onde se forma o campo do eu, da percepção e da fala. O sonho interessará especialmente porque, durante o sono, a comunicação entre esses sistemas se modifica, algumas barreiras se relaxam, outras se reforçam, e a energia psíquica encontra trilhas que, na vigília, permanecem interditadas.
É nesse ponto que entra a dimensão econômica da teoria, muitas vezes esquecida nas leituras apressadas. Para Freud, não basta dizer que há ideias inconscientes e conscientes, é preciso perguntar como a energia investe essas ideias, como se liga a elas, como se retira, como busca descarga. Ele fala em cargas psíquicas, investimentos, caminhos de menor resistência. Na vigília, a maior parte da energia está comprometida com o mundo externo: percepção, pensamento orientado à realidade, ação. À noite, com os canais motores parcialmente bloqueados e a atenção desligada dos estímulos externos, essa energia se redistribui. Desejos recalcados aproveitam a relativa suspensão das exigências do eu para tentar voltar à cena. O sonho é, então, a tentativa do aparelho de conciliar essa pressão vinda do inconsciente com a necessidade de manter o sono, isto é, de preservar um certo equilíbrio econômico sem despertar o sujeito com um choque de angústia.
Para dar conta dessa dinâmica, Freud introduz uma diferença fundamental entre processos psíquicos primários e secundários. No inconsciente vigora o processo primário, regido pelo princípio do prazer, pela busca de satisfação imediata, pela tendência a abolir qualquer tensão que se torne penosa. Lá, a energia circula de modo livre, saltando de uma representação a outra por associações de semelhança, contiguidade, ecos afetivos, sem respeitar as exigências de lógica, tempo ou contradição. É essa lógica que encontramos, em estado quase puro, no trabalho do sonho: condensação, deslocamento, uso intenso de imagens, indiferenciação entre opostos. Já no pré consciente e no consciente domina o processo secundário, mais ligado ao princípio de realidade, ao pensamento organizado, à prova de realidade, ao uso da linguagem de forma coerente. A elaboração secundária do sonho, aquela edição final que o torna narrável, é manifestação típica desse segundo regime.
O sonho, na psicologia dos processos oníricos, aparece então como palco do encontro tenso entre esses dois modos de funcionamento. Quando um desejo inconsciente se ativa durante o sono, ele tende, pelo processo primário, a buscar a via mais curta para a satisfação: reativar uma lembrança de satisfação, construir uma cena em que o desejo se cumpre, abolir simbolicamente a frustração. Mas, para chegar ao campo pré consciente e consciente, esse movimento precisa atravessar a censura, adaptar se às exigências de figurabilidade, escapar das defesas do eu. O trabalho do sonho é justamente a série de operações que permitem a passagem de algo do processo primário ao secundário, sem que o eu entre em colapso. A psicologia dos processos oníricos é, nesse sentido, uma teoria da negociação interna: como o aparelho transforma um impulso inconsciente em narrativa deformada, mas suportável.
Um conceito decisivo que Freud elabora aqui é o de regressão. No sonho, diz ele, o movimento da excitação psíquica tende a retroceder em direção a camadas mais antigas do funcionamento. Em vez de seguir a direção habitual da percepção à motricidade, ele recua da palavra à imagem, da imagem à lembrança sensorial, como se o aparelho psíquico descesse alguns degraus em sua própria história. Essa regressão é ao mesmo tempo temporal e funcional. Temporal, porque o sonho reativa modos de experiência muito próximos da vivência infantil, quando as imagens dominavam sobre os conceitos e o princípio do prazer imperava com menos freio. Funcional, porque o pensamento abandona provisoriamente a forma lógica e discursiva para se reorganizar no modo da cena, do quadro, do filme. O Capítulo VII mostra como essa regressão não é um acidente, mas uma exigência da própria estrutura do sonho: para que os pensamentos latentes se tornem representáveis, eles precisam regressar ao modo de funcionamento em que imagem e afeto estão mais diretamente ligados.
Do ponto de vista didático, essa parte da obra é a ponte perfeita entre a clínica do sonho e a metapsicologia freudiana. Tudo aquilo que o leitor viu acontecer, sonho por sonho, ganha agora um esquema mais abstrato: um aparelho em camadas, uma economia de energia, duas formas de processo psíquico, movimentos de regressão e progressão. O sonho deixa de ser apenas material a interpretar e se torna experimento natural em que se observa como o inconsciente funciona, como o eu tenta se defender, como as formações de compromisso se produzem. É como se Freud dissesse: olhem, quando vocês seguem as associações de um sonho até os pensamentos latentes, estão, na prática, caminhando de volta do processo secundário ao primário, do consciente ao inconsciente, contra a corrente de deformações que o aparelho impõe para proteger se.
Ao articular sonho e aparelho psíquico, Freud também prepara o terreno para desenvolvimentos posteriores, como os textos metapsicológicos de 1915, especialmente O inconsciente. Ali, ele retomará a distinção entre sistemas, os critérios que definem o que é inconsciente, as relações entre recalcamento e retorno do recalcado. Mas é em A interpretação dos sonhos, nesse início do Capítulo VII, que tudo começa a tomar forma explícita. O sonho, que parecia ser apenas o laboratório privilegiado do desejo, revela se como o lugar em que a arquitetura inteira do psiquismo aparece sob luz oblíqua. Quem aprende a lê lo não ganha apenas um instrumento para interpretar cenas noturnas, ganha um mapa para escutar sintomas, atos falhos, chistes, lapsos da vigília, todos eles variações do mesmo modo de funcionamento.
No fim das contas, a psicologia dos processos oníricos mostra por que o sonho foi para Freud a via régia do inconsciente. Não apenas porque traz conteúdos recalcados, mas porque expõe, em miniatura, a lógica do aparelho como um todo: a pressão da pulsão, a barreira da censura, as artimanhas do desejo, os remendos do eu, a dança da energia entre camadas. Quando o leitor atravessa essa primeira metade do Capítulo VII, tem a sensação de que Freud virou o sonho do avesso e, ao fazê lo, revelou também o avesso do próprio sujeito. O sonho deixa de ser curiosidade da noite e passa a ser, definitivamente, a chave de entrada de uma psicologia que se arrisca a pensar aquilo que o próprio sujeito não domina em si.
Referências
Freud, S. A interpretação dos sonhos.
Freud, S. Projeto para uma psicologia científica.
Freud, S. O inconsciente.

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