Quando o pensamento vira desenho: o sonho como tradução forçada do que não cabe em imagem
Em certo ponto de A interpretação dos sonhos, Freud faz uma pergunta que parece simples, mas que muda a maneira como olhamos para o sonho: como é que um pensamento abstrato, cheio de nuances, vira uma cena visual. Se o sonho, em última instância, se apresenta como filme, como teatro de imagens e situações, o que acontece com tudo aquilo que, na nossa vida mental, é feito de conceitos, fórmulas, relações lógicas, ideias morais. É essa passagem forçada do pensamento à imagem que ele chama de “considerações sobre a representabilidade” ou figurabilidade. E é justamente aí que se acrescenta uma camada a mais de deformação ao sonho: não basta o desejo precisar driblar a censura por condensação e deslocamento, ele ainda é obrigado a caber numa forma que pensa em figuras e não em teorias.
Freud parte de uma constatação muito concreta: o material do sonho é, sobretudo, visual. Sonhamos em cenas, corpos, espaços, cores, movimentos. Mesmo quando, ao recordar, dizemos que “sabíamos” algo no sonho, essa sabedoria costuma vir colada a uma imagem, a uma situação, a uma frase ouvida. Pensamentos abstratos — como “sou injustiçado”, “isso é humilhante”, “tenho medo de fracassar”, “quero me vingar” — não têm forma própria para aparecer no teatro onírico. Eles precisam ser encarnados em algo que se possa ver ou, pelo menos, ouvir. O sonho funciona, nesse sentido, como uma língua estrangeira cuja gramática privilegia o concreto e o sensorial. Se o pensamento quer participar dessa língua, precisa aceitar ser traduzido, e toda tradução implica perda, mal-entendido e invenção.
É aqui que a deformação assume um aspecto quase poético. Quando um paciente traz um sonho em que está subindo intermináveis escadas, atrasado, sem nunca chegar ao lugar certo, é fácil reconhecer ali a transposição em imagem de um pensamento sobre esforço e fracasso, sobre não estar à altura de algo. Mas o caminho que levou desse pensamento ao sonho não foi direto. O aparelho psíquico teve de procurar, no repertório de experiências do sujeito, uma situação capaz de figurar a sensação de “não chegar lá”: um exame antigo, uma corrida infantil, um episódio de atraso vexatório. Esses fragmentos alimentam a cena onírica, que se torna, ao mesmo tempo, lembrança modificada, fantasia e metáfora visual de um estado psíquico. A representabilidade exige que a abstração se torne desenho; a lógica vira geografia, a preocupação vira enredo.
Quando o que está em jogo são relações lógicas, o desafio é ainda maior. Freud observa que o sonho tem muita dificuldade em representar negação, hipótese, condição. O “não” quase não aparece como palavra; em vez disso, o sonho inverte, omite, desloca. Se na vigília alguém pensa “não desejo isso”, no sonho pode aparecer justamente a cena em que aquilo acontece, às vezes de forma caricata, produzindo angústia. Mais uma vez, a censura e a figurabilidade trabalham juntas: a proibição se inscreve não como “não”, mas como cenário que provoca resistência. As relações de causa e efeito, as conjunções do tipo “mas”, “embora”, “porém” são traduzidas por justaposições espaciais, por mudanças bruscas de cena, por contrastes de tonalidade. O sonho pensa sem conectivos lógicos; onde a vigília diria “apesar de”, o sonho mostra duas coisas lado a lado, cabendo ao intérprete reconstruir a articulação.
A linguagem, nesse processo, é convocada de modos surpreendentes. Palavras podem aparecer escritas em placas, cartazes, cartas lidas no sonho. Outras vezes, uma palavra se torna objeto, como num jogo de charadas ou num rébus. Freud insiste muito nessa analogia: o sonho, em grande parte, escreve com imagens aquilo que na língua é som e significado. Um trocadilho pode ser “desenhado” em forma de cena; uma expressão idiomática vira imagem literal. Se alguém costuma dizer, acordado, que “está com a corda no pescoço”, não é raro que, em algum sonho, apareça uma cena de enforcamento, não porque a pessoa deseje morrer, mas porque o aparelho psíquico, obedecendo à exigência de representabilidade, pegou a metáfora ao pé da letra. O inconsciente, na formulação freudiana, leva muito a sério o jogo de palavras.
É nesse ponto que se torna didaticamente potente mostrar como os mesmos mecanismos atravessam sonhos, chistes, atos falhos e sintomas. O que não cabe diretamente na fala clara escorrega para o equívoco, para a imagem, para o corpo. A figurabilidade do sonho tem como primo próximo o corpo histérico que “representa” conflitos psíquicos em forma de paralisias, dores, cegueiras sem base orgânica. Em ambos os casos, o abstrato precisa de carne, de gesto, de forma sensível. E, ao se tornar sensível, deforma-se. A vergonha abstrata vira nudez em praça pública; a sensação de estar bloqueado vira sonho de pernas que não se movem; a angústia diante de uma decisão impossível vira encruzilhada de caminhos, portas que não se abrem, labirintos. Essas imagens não são ilustrações bonitas de uma ideia; são o modo específico como o aparelho psíquico consegue, sob censura, dar corpo ao que o sujeito vive sem saber que vive.
Trabalhar esse trecho com alunos ou pacientes é, em última instância, mostrar o limite do que “cabe” em forma de sonho. Não se trata de perguntar apenas “o que significa tal símbolo”, mas de acompanhar o caminho que levou um pensamento ou uma constelação afetiva a ser encenado daquele modo e não de outro. Por que aquele sentimento virou escada, e não elevador. Por que aquele embaraço virou nudez, e não queda. A resposta não está num dicionário universal, mas na história singular de quem sonha, na sua relação com as palavras, nas suas experiências corporais e emocionais. A representabilidade aparece, então, como uma pressão dupla: de um lado, o desejo inconsciente que insiste em se exprimir; de outro, o idioma restrito de que o sonho dispõe para fazê-lo, um idioma que privilegia o ver e o ouvir, e que impõe ao pensamento a necessidade de se deixar traduzir.
Ao falar de considerações sobre a representabilidade, Freud torna a teoria do sonho mais complexa e mais humilde ao mesmo tempo. Mais complexa, porque acrescenta um nível a mais de trabalho psíquico entre o pensamento latente e o conteúdo manifesto; não basta descobrir o desejo, é preciso compreender que forma imagética ele encontrou. Mais humilde, porque reconhece que o sonho, por mais engenhoso que seja, está preso a um meio de expressão que jamais dá conta plenamente do que está em jogo. Há sempre um resto que não cabe na imagem, um excesso que escapa à cena e retorna, talvez, em outro sonho, em um sintoma, em um lapso. A verdade do sujeito, no regime onírico, nunca aparece inteira; aparece recortada, dramatizada, desenhada. E é justamente nesse desenho imperfeito que ela se deixa entrever.
Referências
Freud, S. A interpretação dos sonhos.
Freud, S. Conferências introdutórias sobre psicanálise.

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