Quando o sonho deixa de ser bobagem noturna: Freud entra em cena
Antes de Freud, o sonho já tinha atravessado séculos como um enigma incômodo, ora reverenciado como mensagem dos deuses, ora rebaixado a ruído sem importância produzido por um cérebro cansado. É justamente esse terreno ambíguo que ele pisa ao abrir o Capítulo I de A Interpretação dos Sonhos. Em vez de começar impondo sua tese, Freud escolhe, quase como um advogado meticuloso, colocar o sonho em questão a partir da tradição que o antecede. Ele recolhe teorias, opiniões, tratados, desde a antiguidade até a ciência do século XIX, e vai mostrando, uma a uma, suas promessas e seus impasses, como quem prepara o leitor para perceber que ali há um problema ainda em aberto, apesar da imensa erudição acumulada.
De um lado está a herança mais antiga, que via o sonho como porta de entrada do divino. Os gregos, os romanos, as culturas que consultavam sonhos em templos de incubação, os manuais de interpretação simbólica que prometiam decifrar o futuro por meio de imagens noturnas, tudo isso é convocado à cena. Freud não ridiculariza esse legado, mas mostra que ele se apoia em uma leitura mágica, que toma o sonho como mensagem vinda de fora, da divindade ou do destino, sem perguntar seriamente o que ali se passa com o sujeito que sonha. O sonho é tratado como oráculo, não como ato psíquico, e por isso permanece, paradoxalmente, sem psicologia. Ele não pertence ao sonhador, é um recado que o atravessa. A subjetividade, que será o eixo da psicanálise, ainda está ausente.
Do outro lado aparece a reação moderna a essa tradição, que tenta expulsar o sagrado da explicação, mas acaba jogando fora, junto com os deuses, o próprio sentido do sonhar. A literatura médica e filosófica pré freudiana oferece um vasto repertório de explicações fisiológicas. O sonho seria resultado de estímulos somáticos, de irritações sensoriais, de restos de excitação corporal que se infiltram na mente quando os sentidos externos estão amortecidos. Seria produto de digestões difíceis, posições incômodas, febres, congestões. Outras teorias enfatizam a fadiga do cérebro, a suspensão parcial da razão, a confusão espontânea de imagens quando a vigilância consciente relaxa. Em muitas dessas perspectivas, o sonho se torna algo secundário, epifenômeno, resíduo sem importância, quase lixo da atividade mental. A pergunta pelo seu sentido é desautorizada por princípio.
Freud revisita essas explicações com rigor e ironia contida. Ele reconhece o valor de certas observações experimentais, admite que estímulos somáticos podem influenciar conteúdos oníricos, mas recusa a redução do sonho a isso. Se fosse apenas efeito de estímulos externos ou internos, por que o enredo onírico assume formas tão singulares, tão ligadas à vida do sonhador, tão cargadas de afeto e lembranças? Por que o mesmo estímulo não produz sempre o mesmo sonho? Algo, para além da fisiologia, está operando na elaboração da cena. A filosofia, por sua vez, muitas vezes declara o sonho irracional, jogo caótico de imagens, simples perturbação de uma consciência que, adormecida, teria dispensado as leis da lógica e da moral. Sob roupagens diferentes, a mensagem é a mesma: o sonho não merece ser levado a sério como pensamento. Freud percebe aí uma recusa persistente em admitir que o sonhar seja trabalho psíquico.
É nessa revisão crítica que se prepara silenciosamente a ruptura freudiana. Ao percorrer a tradição, ele mostra que a cultura oscilou entre dois extremos: ou elevou o sonho à condição de mensagem sobrenatural, ou o rebaixou a acaso fisiológico, a ruído sem valor. Em ambos os casos, o que ficou eclipsado foi o sujeito. Ninguém perguntou de modo radical o que o sonho diz do desejo de quem sonha, que lógica rege sua fabricação, que necessidade interna o produz. Quando Freud coloca o sonho em questão, ele não está apenas criticando teorias alheias, está abrindo espaço para um gesto simples e revolucionário: tratar o sonho como uma formação de compromisso, uma realização psíquica dotada de sentido, que merece ser interpretada como se fosse um texto, uma fala velada, uma via de acesso ao inconsciente.
O Capítulo I de A Interpretação dos Sonhos tem, por isso, uma função didática preciosa. Ele situa o leitor no contexto histórico, exibe os limites das explicações fisiológicas e filosóficas prévias, desmonta tanto a ingenuidade supersticiosa quanto o ceticismo que reduz o sonho a nada, e cria a sensação, quase palpável, de que estamos diante de um fenômeno mal compreendido, esperando outro olhar. É como se Freud dissesse: examinamos o que se pensou até agora, constatamos lacunas e contradições, agora é possível arriscar algo novo. O terreno está preparado para que, nos capítulos seguintes, ele apresente sua tese escandalosa para a época, a de que o sonho é, em sua essência, a realização de um desejo inconsciente, e que, longe de ser um lixo psíquico, ele é uma das vias mais privilegiadas para se conhecer aquilo que o sujeito ignora de si mesmo.
Ao recolocar o sonho em questão, Freud rompe com séculos de tradição sem simplesmente destruí la. Ele ressignifica o problema, desloca o foco para a interioridade, para o conflito, para o recalcamento, e inaugura uma forma de escuta que ainda hoje sustenta a clínica. A atualidade desse primeiro trecho não está apenas nas críticas que ele faz às teorias anteriores, mas na coragem de afirmar, contra o senso comum antigo e moderno, que aquilo que a razão diurna despreza como absurdo noturno pode ser, justamente, o lugar em que o sujeito fala mais verdadeiramente de si.
Referências
Freud, S. A interpretação dos sonhos.
Freud, S. Conferências introdutórias sobre psicanálise.
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