Quando o sonho entrega o desejo que o eu nega

Depois de se expor no sonho de Irma e de mostrar o passo a passo da interpretação, Freud decide ir até o fim naquilo que, para muitos leitores, é o ponto mais escandaloso de A interpretação dos sonhos. Ele não se contenta em dizer que o sonho tem sentido ou que revela algo do sujeito, ele formula uma tese radical: o sonho é, em sua essência, a realização de um desejo. É no desfecho do Capítulo II e, sobretudo, no Capítulo III que essa afirmação toma forma explícita e sistemática. A partir de uma coleção de sonhos aparentemente banais, cômicos ou perturbadores, Freud arrisca a generalização que mudará para sempre a maneira como pensamos o sono e a vida psíquica. Por trás de cada cena onírica, por mais absurda ou assustadora que pareça, haveria um desejo que encontra ali sua via de realização, ainda que disfarçado para escapar à censura interna.

A primeira estratégia de Freud é quase desarmante de tão simples. Ele começa pelos sonhos das crianças. Nelas, diz ele, o sonho ainda aparece em sua forma mais transparente. A criança que foi obrigada a interromper um jogo sonha que continua a brincar. A criança que recebeu apenas uma fatia de bolo sonha com um banquete. A cena onírica realiza, sem pudor, um desejo diurno frustrado. Nenhuma metáfora rebuscada, nenhuma distorção elaborada. Aquilo que faltou na realidade reaparece, inteiro, na noite. É como se o sonho dissesse, sem rodeios: você não teve, então aqui está. Essa evidência infantil prepara o terreno para a tese geral. Se nas crianças é tão claro que o sonho realiza desejos, por que não considerar que algo semelhante exista também no adulto, ainda que sob camadas de disfarce.

É ao passar para os sonhos de adultos que o escândalo começa. O leitor não demora a objetar, talvez o próprio aluno em sala de aula: como assim o sonho realiza desejos se eu sonho que estou nu em público, humilhado, paralisado, perseguido por uma ameaça, vendo alguém morrer. Onde estaria o desejo em um pesadelo. Freud não foge dessa resistência, ao contrário, ele a toma como parte integrante do fenômeno. A tese se torna mais precisa: o sonho é a realização de um desejo reprimido, realizada de modo disfarçado. A diferença está na palavra reprimido. Se fosse um desejo que o eu pudesse reconhecer e aceitar à luz do dia, o sonho seria tão direto quanto o da criança. Mas quando se trata de desejos incompatíveis com a moral, com o ideal de si ou com as exigências do supereu, o cumprimento desse desejo só pode ocorrer sob mascaramento. O pesadelo, nesse sentido, não é prova contra a tese, é justamente um testemunho de que a censura onírica está operando e de que a realização do desejo provoca angústia.

Freud introduz então a distinção decisiva entre conteúdo manifesto e conteúdo latente do sonho. O conteúdo manifesto é aquilo que o sonhador relata: a narrativa tal como lembra, a cena visível. O conteúdo latente é o conjunto de pensamentos, lembranças e desejos que, por meio da associação livre, se ligam a cada detalhe da cena. Entre um e outro, opera aquilo que ele chamará, nos capítulos seguintes, de trabalho do sonho: condensação, deslocamento, consideração da figurabilidade, elaboração secundária. Mas já aqui, ao fim do Capítulo II e no Capítulo III, a lógica está clara. A realização de desejo não é visível na superfície, ela exige que se atravesse o texto onírico, que se recolham as associações, que se suporte a estranheza do que emerge. Sob o sonho manifesto de perseguição, pode se esconder o desejo de se livrar de alguém, sob o sonho de punição, o desejo de entregar se à autoridade que se ama e teme, sob o sonho de morte de alguém querido, o retorno de fantasias hostis infantis que foram recalcadas.

É nesse ponto que o tema da sexualidade infantil entra em cena como pedra de tropeço. Para sustentar que os sonhos realizam desejos, Freud precisa ir além dos desejos conscientes do adulto. Ele descobre que muitos dos sonhos mais perturbadores recuam até a infância e que, lá, encontra se um campo de desejos que a consciência adulta rejeita: curiosidades sexuais precoces, desejos incestuosos em relação aos pais, rivalidades fraternas mortíferas, fantasias de onipotência e destruição. O sonho torna se, assim, um palco em que a criança que fomos continua a encenar seus enredos, mesmo quando achamos já ter nos tornado civilizados e racionais. A tese da realização de desejo ganha, então, sua forma mais contundente: o sonho atual realiza também, e muitas vezes sobretudo, desejos infantis que permaneceram recalcados, mascarados, transformados. A sexualidade infantil, com todo o seu potencial de escândalo moral, não é um capítulo lateral da teoria; é o coração pulsante daquilo que os sonhos, analisados com paciência, não cessam de revelar.

Didaticamente, esse trecho é um presente para quem ensina e para quem pratica psicanálise. Ao afirmar que o sonho realiza desejos, Freud não oferece apenas uma fórmula, ele expõe a estrutura mesma da resistência. O leitor se revolta, ri, nega, tenta encontrar contraexemplos, exatamente como o paciente faz quando é confrontado com hipóteses de desejo que contrariam sua autoimagem. A tese se torna, assim, uma ferramenta para mostrar o trabalho da censura: se o sonho nos parece tão frequentemente absurdo, vergonhoso ou assustador, é porque ele carrega algo que a censura tentou deformar. Trabalhar esse trecho em aula é mostrar a diferença entre censura moral e elaboração analítica. Não se trata de acusar o sonhador de desejar o que é socialmente condenável, mas de ajudá lo a reconhecer que, no labirinto de seus sonhos, falam também o seu passado infantil, suas ambivalências, sua agressividade, seus amores e ódios recalcados.

Quando colocamos o sonho em questão a partir da tese freudiana da realização de desejo, o que se abala não é apenas uma teoria sobre o sono, é a própria crença do eu de que domina aquilo que quer. A realização de desejo no sonho é um lembrete incômodo de que o sujeito deseja para além do que confessa, de que a criança que o habita continua a falar, de que a moral e a razão não esgotam a verdade do desejo. É por isso que, mais de um século depois, o final do Capítulo II e o Capítulo III de A interpretação dos sonhos continuam tão vivos: eles nos obrigam a admitir que o sonho, essa experiência noturna aparentemente frágil, é um dos lugares onde o sujeito se trai com mais sinceridade. E que a clínica que leva isso a sério precisa estar preparada para ouvir o desejo em suas formas mais inaceitáveis, mais infantis e mais surpreendentes.

Referências

Freud, S. A interpretação dos sonhos.
Freud, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade.

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