Quando o sonho mente para dizer a verdade: a censura que escreve nossas noites
Se Freud tivesse parado na frase “o sonho é a realização de um desejo”, sua teoria soaria simples demais, quase ingênua, diante da experiência real de quem sonha. Basta uma noite mal dormida para que qualquer pessoa pergunte: que realização de desejo é essa que me faz acordar apavorado, envergonhado, perseguido, em cenários sem sentido. É justamente nesse ponto que entra o Capítulo IV de A interpretação dos sonhos. É aqui que Freud precisa enfrentar a objeção mais forte à sua tese e, ao fazê lo, introduz uma das ideias mais fecundas da psicanálise: a deformação onírica como efeito de censura. O sonho, longe de mentir “apenas”, mente para proteger e, paradoxalmente, mente para deixar passar alguma verdade do desejo. Ele é, ao mesmo tempo, acusação e disfarce, denúncia e camuflagem.
Freud parte de uma constatação desconcertante. Se em muitas crianças o sonho é direto, quase transparente, no adulto ele chega em geral disfarçado, truncado, absurdo. Há sonhos tão nitidamente punitivos, tão atravessados por angústia, que parecem desmentir qualquer “realização de desejo”. Em vez de recuar, ele decide olhar de frente para essa estranheza. Se o sonho de fato realiza desejos, por que ele precisa se apresentar como pesadelo, como drama sem lógica, como peça incoerente. A resposta que vai se construindo é esta: porque aquilo que deseja não é aceitável para o eu consciente. Há uma instância psíquica que vigia, filtra, distorce, impede que certos conteúdos cheguem à consciência tal como são. É a essa instância que Freud chama censura. E é a operação dela que produz a deformação onírica.
A imagem que ele utiliza é simples e poderosa. Pense na imprensa de um regime autoritário: tudo o que ameaça a ordem vigente é cortado, modificado, reescrito, empurrado para entrelinhas. Ainda assim, um olhar mais atento percebe que justamente os textos estranhos, truncados, cheios de eufemismos e lacunas denunciam a presença da censura; eles indicam que ali havia algo perigoso demais para ser dito em voz alta. O sonho, para Freud, funciona de modo análogo. Quando o desejo que insiste é compatível com o eu e com a moral, quase não há deformação. O sonho se parece com os das crianças: direto, reconhecível. Mas quando o desejo colide com proibições internas rígidas, a censura entra em cena. Ela não suprime completamente o desejo, porque o próprio sonho precisa dar alguma satisfação a ele; em vez disso o deforma, desloca, encobre. O resultado é uma formação de compromisso: nem o desejo vence sozinho, nem a censura cala tudo; os dois chegam a um acordo precário, e esse acordo é o sonho tal como lembramos ao despertar.
A ideia de compromisso é decisiva. O sonho não é a expressão pura de uma verdade interior nem o produto puro da repressão. É sempre um meio termo instável. De um lado, forças pulsionais que exigem satisfação, que buscam retorno, que insistem a partir do inconsciente. De outro, barreiras internas que se alimentam de interditos familiares, valores morais, exigências culturais, ideais de eu. Entre esses dois campos, algo precisa ser negociado para que o sono continue. Se o desejo irrompesse cru, acordaríamos em sobressalto ou nos sentiríamos ameaçados na própria imagem que sustentamos de nós mesmos. Se a censura triunfasse de maneira absoluta, não haveria sonho, e a excitação pulsional encontraria outra via de descarga, talvez no sintoma diurno. A deformação onírica é, por isso, a solução encontrada pelo aparelho psíquico para permitir que alguma satisfação se introduza sem que o eu se dê conta tão facilmente de seu conteúdo escandaloso.
Nessa altura do livro, a topografia psíquica começa a se desenhar com mais nitidez. Freud fala de sistemas diferentes em operação: o inconsciente, que abriga representações recalcadas e desejos infantis; o pré consciente e o consciente, onde atuam as formas de pensamento aceitas e vigiadas. A censura, situada entre esses sistemas, funciona como guarda de fronteira. Quando um desejo inconsciente tenta atravessar para o lado pré consciente, a censura o examina. Se ele é compatível com o que o eu pode tolerar, a passagem é fácil. Se não é, será barrado, recalcado, ou só poderá passar disfarçado. O sonho é o momento privilegiado em que esse jogo de forças se acentua, porque o sono relaxa algumas defesas, mas não suspende todas. Não existe “sono sem censura”; existe, isto sim, uma censura que, à noite, opera de maneira mais plástica, criando transfigurações, mascaramentos, deslocamentos.
A consequência didática disso é preciosa. Quando o aluno se pergunta por que precisa da associação livre para trabalhar um sonho, a resposta está aqui. O conteúdo manifesto, isto é, aquilo que o sonhador lembra e relata, já é produto da censura. É fachada. Não é que seja “falso”, é que está construído para esconder e ao mesmo tempo deixar escapar. O trabalho do analista não é impor um significado simbólico pré fabricado, mas desmontar essa fachada, bloco por bloco, guiado pelas associações do próprio sonhador. Ao seguir o que ele diz sobre cada detalhe, começamos a ver onde a censura apertou mais, onde o absurdo é maior, onde o deslocamento é mais radical. Quanto maior a deformação, maior a resistência; quanto mais estranha a cena, tanto mais provável que havia ali um desejo particularmente inaceitável para o eu. O sonho se torna, assim, um mapa das proibições internas do sujeito.
Freud insiste que isso não é um capricho teórico; é a própria maneira como o inconsciente se mostra em funcionamento. A deformação onírica é o traço visível de uma luta que permanece em grande parte invisível. É por isso que o sonho, tal como é lembrado, raramente convence o próprio sonhador de que ali há desejo. Ao contrário, ele tende a dizer “não tem nada a ver comigo”, “não sou assim”, “jamais desejaria isso”. A distância entre o eu e o conteúdo latente é medida, justamente, pela censura. Trabalhar esse trecho de A interpretação dos sonhos com estudantes ou pacientes é mostrar que o escândalo não está em Freud, mas no próprio aparelho psíquico: desejamos mais, e de forma mais contraditória, do que gostaríamos de admitir. E o sonho, comprimido entre o inconsciente e a censura, precisa se virar como pode para dar uma cara aceitável a isso.
Assim, quando Freud fala de deformação onírica, ele não está apenas explicando por que os sonhos são estranhos. Ele está introduzindo, em ato, o inconsciente freudiano em funcionamento. A censura não é um conceito abstrato, é o nome que damos ao fato de que, para chegar até nós, nosso desejo precisa passar por filtros que o distorcem. O sonho, no Capítulo IV, deixa de ser apenas um texto a ser decifrado e passa a ser uma prova viva de que o sujeito é dividido, atravessado por forças em conflito. O que nele há de mais atual talvez seja justamente isso: em uma época que promete transparência total de si, autocontrole e exposição contínua, Freud nos lembra que, no silêncio da noite, ainda precisamos mentir para nós mesmos para continuar dormindo.
Referências
Freud, S. A interpretação dos sonhos.
Freud, S. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise.
André Gasparini
Psicanalista e Hipnoterapeuta
11 92096-9928
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