Quando o sonho troca as etiquetas: o truque do deslocamento em Freud

 Se a condensação já havia mostrado que o sonho junta muitas coisas em uma só, é com o deslocamento que Freud dá o golpe mais desconcertante na confiança do eu. É no trecho de A interpretação dos sonhos dedicado ao deslocamento que ele revela um dos truques mais finos do trabalho onírico. O desejo, impedido de aparecer em sua forma direta, não desaparece, apenas muda de lugar. A carga afetiva abandona a representação importante e se prende a um detalhe secundário, a um personagem lateral, a uma circunstância aparentemente insignificante. O sonho então se apresenta como uma história em que o que parece central é apenas um figurante, e o que realmente importa passou para os bastidores. É como se o inconsciente tivesse reorganizado o palco, trocando as etiquetas dos papéis para enganar a censura sem perder de todo o fio do desejo.

Freud parte de uma experiência que qualquer um reconhece. Há sonhos em que o enredo parece tratar de coisas sem peso, cenas banais, personagens neutros, e ainda assim o sonhador acorda tomado por uma angústia intensa ou por uma estranha euforia. A desproporção entre o que se conta e o que se sente é o primeiro indício de que algo foi deslocado. Por que um detalhe tão pequeno provoca tanta emoção. Por que aquele incidente trivial ocupa o centro da cena onírica, enquanto questões sabidamente mais graves da vida do sujeito estão ausentes. A resposta freudiana é que a afetividade não se fixou no lugar que o eu reconheceria como perigoso. Ela se deslocou para um ponto menos suspeito, que serve de tela para representar, em segurança relativa, um conflito que em sua forma original seria insuportável para a consciência.

O deslocamento é, nesse sentido, o aliado mais hábil da censura. Se esta não permite que certas ideias e imagens cheguem diretamente à consciência, é porque nelas se concentraria um desejo que contraria a moral, o ideal de eu, o amor próprio. Para que o sonho ainda assim possa realizar de algum modo esse desejo, o aparelho psíquico recorre a uma manobra: retira a maior parte do investimento afetivo da representação que o expressaria de modo claro e a injeta em outra, mais aceitável ou mais obscura. O pensamento latente forte entra na composição da cena, mas sob máscara. Em seu lugar aparece um substituto, um representante de menor importância. Na superfície, o sonho parece falar de A, mas em profundidade fala de B. O deslocamento faz do sonho um texto em que os nomes estão trocados, como uma carta que foi assinada com pseudônimo.

É por isso que Freud insiste tanto em que não há como interpretar um sonho apenas olhando o conteúdo manifesto, mesmo que se tenha à mão um repertório simbólico sofisticado. O que se vê não é o que se investe. Muitas vezes, o significante mais carregado no relato é aquele que, na vida diurna, ocupa lugar discreto. Uma brincadeira sem graça, um colega quase anônimo, uma rua por onde se passa de vez em quando, tornam se, na cena onírica, foco de emoções intensas. Quando se seguem as associações, descobre se que essa figura discreta condensa características de alguém muito mais importante, que não poderia aparecer diretamente sem acionar defesas mais vigorosas. O sonho prefere atacar de flanco. O deslocamento permite que o desejo circule por caminhos indiretos, mudando os pontos de ancoragem do afeto para escapar à vigilância da censura.

Esse mecanismo que o sonho põe em cena à noite é o mesmo que Freud reencontra, à luz do dia, em fenômenos clínicos como chistes, atos falhos e sintomas. No livro sobre Os chistes e sua relação com o inconsciente, ele mostra como uma piada aparentemente inocente pode carregar uma agressividade ou uma obscenidade que ninguém se autorizaria a dizer frontalmente. O alvo declarado do chiste nem sempre é o verdadeiro destinatário do ataque. A graça muitas vezes está justamente nesse desvio, nessa possibilidade de dizer outra coisa através de um objeto intermediário. No campo da Psicopatologia da vida cotidiana, os lapsos de linguagem, os erros de nome, os esquecimentos revelam o mesmo deslocamento. Um nome se impõe no lugar de outro, uma palavra invade uma frase, um compromisso importante é esquecido enquanto um detalhe secundário é lembrado com obstinação. Em todos esses casos, algo do desejo escapa de seu lugar esperado e reaparece travestido, deslocado, ocupando o lugar de um elemento que parecia neutro.

Na clínica dos sintomas, o deslocamento também é reconhecível. Um sujeito que não pode admitir sua hostilidade em relação a determinada pessoa manifesta uma irritação desmedida com hábitos banais de um colega, ou desenvolve um medo específico aparentemente irracional. A angústia que não pode se ligar diretamente ao seu verdadeiro objeto se fixa em outro, mais inofensivo. A fobia clássica, por exemplo, muitas vezes desloca para um animal, uma altura, um espaço fechado, uma angústia que tem origem em conflitos muito mais complexos. O sintoma é, nesse sentido, parente do sonho, do chiste, do ato falho. Todos mostram o desejo em movimento, escorregando de um significante a outro para contornar a proibição.

Na seção sobre o deslocamento, A interpretação dos sonhos ganha assim uma dimensão que ultrapassa o campo onírico. Ao descrever como o investimento afetivo se movimenta dentro do sonho, Freud está ao mesmo tempo descrevendo uma lei de funcionamento do inconsciente. O sentido não está fixado, ele pode migrar. A cena não é apenas aquilo que se vê, é aquilo que foi colocado ali no lugar de outra coisa. Trabalhar esse trecho em sala de aula, muitas vezes, significa ensinar a ler onde o olhar não quer pousar. Significa mostrar que, diante de um sonho ou de um sintoma, é preciso desconfiar do que aparece como protagonista e perguntar o que, por trás dele, foi discretamente afastado do centro. O deslocamento nos obriga a abandonar a ingenuidade de querer ligar diretamente imagem e significado, e a aceitar que o inconsciente prefere sempre caminhos oblíquos.

Talvez seja por isso que esse conceito continua tão inquietante. Ele aponta para o fato de que não apenas escondemos certas coisas de nós mesmos, mas também as trocamos de lugar sem saber. O sonho que dramatiza de forma exagerada um problema pequeno pode estar dizendo, em segredo, de um drama maior que ainda não se pode nomear. O riso diante de um chiste pode carregar uma concordância com uma crueldade que o eu consciente repudiaria. A irritação desproporcional com um atraso, um ruído, uma frase, pode revelar um deslocamento de conflitos que não encontraram ainda outro modo de inscrição. Em todos esses movimentos, o que se vê é o desejo tentando existir sob formas que a censura tolere. O deslocamento é o gesto com que o inconsciente move suas peças, como em um jogo silencioso, deixando ao analista e ao próprio sujeito a tarefa de remontar o tabuleiro.

Referências

Freud, S. A interpretação dos sonhos.
Freud, S. A psicopatologia da vida cotidiana.
Freud, S. Os chistes e sua relação com o inconsciente.

André Gasparini

Psicanalista e Hipnoterapeuta

11 92096-9928

Centro Comercial Alphaville - Calçada das Anêmonas, 20 - Alphaville, Barueri - SP, 06453-005, Brasil

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