Quando todos sonhamos o mesmo sonho: a clínica secreta dos sonhos típicos em Freud

 Há um momento em A interpretação dos sonhos em que Freud surpreende o leitor ao mostrar que aquilo que cada um jura ser o mais íntimo e pessoal, o sonho, obedece a formas surpreendentemente comuns. De repente, o livro deixa de ser apenas teoria para se tornar quase um gabinete de curiosidades oníricas. Na segunda metade do Capítulo V, ele começa a reunir coleções de sonhos típicos, sonhos que parecem circular de sujeito em sujeito como se fizessem parte de uma memória compartilhada: sonhos de comodidade, de nudez em público, de exames que já ficaram no passado, de morte de pessoas queridas, de quedas, de voos, de dentes que se soltam. É como se Freud, ao abrir esse álbum de sonhos, nos dissesse que, por trás da singularidade de cada história, os caminhos do desejo e da censura passam invariavelmente por certas cenas que se repetem com pequenas variações.

Os sonhos de comodidade são talvez os mais fáceis de reconhecer e, por isso mesmo, os mais desprezados. A bexiga está cheia, mas em vez de acordar para ir ao banheiro, o sonhador sonha que já encontrou um sanitário perfeito e se alivia serenamente, apenas para acordar depois às pressas. O barulho insistente do despertador é incorporado como sino de igreja, buzina de rua, martelar distante. O corpo exige o fim do sono, o sonho responde oferecendo uma solução imaginária que permita dormir mais um pouco. Freud vê nesses sonhos um exemplo claro de sua tese: até o detalhe aparentemente fisiológico é aproveitado para realizar um desejo, o de prolongar a continuidade do sono. O aparelho psíquico não é passivo diante dos estímulos, ele trabalha para conciliá los com o desejo de permanecer adormecido. O sonho torna se, aqui, guardião do sono, um truque engenhoso inventado pelo desejo para adiar o encontro com o real.

Mais inquietantes são os sonhos de nudez, aqueles em que o sujeito se descobre subitamente nu ou semidespido em público, diante de uma plateia de desconhecidos ou de figuras respeitáveis. A sensação é de vergonha lancinante, de humilhação, de necessidade urgente de se esconder, mas, curiosamente, as outras pessoas no sonho muitas vezes não parecem notar ou permanecem estranhamente indiferentes. Essa combinação de exposição e indiferença é um dos detalhes que fascina Freud. Ele sugere que, por trás desse cenário, vibra a lembrança de experiências infantis de exibicionismo, momentos em que a criança corre nua pela casa, orgulhosa do corpo, antes de aprender a vergonha. O sonho traz de volta esse prazer antigo de mostrar se, mas sob a forma distorcida exigida pela censura adulta: a vergonha, o mal estar, a fantasia de julgamento. A indiferença dos outros personagens pode ser lida como um modo de negar o próprio desejo de ser visto, como se o sonho dissesse, ao mesmo tempo, “estou me mostrando” e “ninguém está olhando”. A cena onírica torna visível o conflito entre o resquício infantil de exibicionismo e a moral sexual interiorizada.

Os sonhos de morte de pessoas amadas constituem outra coleção perturbadora. Quase todo mundo conhece, em alguma medida, o pesadelo de ver um pai, uma mãe, um filho, um irmão morto em sonho. A reação consciente é de horror, culpa, tristeza. Como sustentar, diante disso, a tese freudiana de realização de desejo. Freud enfrenta a questão com a franqueza que o tornou tão contestado. Ele lembra que, na infância, a ambivalência em relação às figuras amadas é intensa: ama se e odeia se ao mesmo tempo, deseja se a presença e, em certos momentos, deseja se que desapareçam, sobretudo quando são vividos como rivais ou obstáculos. Esses desejos hostis infantis são recalcados, expulsos da consciência, mas não desaparecem por completo. O sonho pode ser o lugar em que, sob a forma dramática da morte do outro, ressurge algo desse desejo de se livrar dele, agora imediatamente coberto pela angústia e pela culpa. A dor vivida no sonho e ao acordar funciona, paradoxalmente, como prova de amor, como defesa contra a acusação íntima de ter desejado o contrário. O desejo e a censura produzem juntos uma cena que é, ao mesmo tempo, realização fantasmática e autopunição.

Há ainda os sonhos de exame, tão frequentes que parecem uma paródia cruel da vida escolar. Adultos bem sucedidos, já distantes da época estudantil, sonham que vão prestar uma prova decisiva, que não estudaram nada, que não encontram a sala certa, que o tempo acabou. A angústia é tão real que, ao despertar, muitos verificam de imediato que o diploma continua lá, pendurado na parede. Freud lê esses sonhos como uma forma típica de reapresentação da situação de ser julgado, avaliado, exposto à possibilidade de fracasso. Sempre que, na vida atual, o sujeito se encontra diante de uma tarefa em que sente que precisa provar seu valor, a antiga cena de exame reaparece como matriz, um molde no qual se vertem preocupações contemporâneas. A realização de desejo aqui é mais sutil: trata se do desejo de passar pela prova mais uma vez e, quem sabe, sair ileso, de mostrar se capaz onde um dia se sentiu ameaçado. O sonho revela que, por trás da confiança adulta, o estudante aterrorizado continua vivo.

Outros sonhos típicos percorrem essa galeria freudiana: sonhos de cair e de voar, de perder dentes, de não conseguir andar ou falar. Nos sonhos de queda, o corpo despenca de uma altura indeterminada, o coração acelera, às vezes o sonho termina no momento do impacto que nunca chega. Freud associa essas experiências oníricas a sensações corporais infantis, a jogos em que os adultos jogavam a criança para o alto e a pegavam de volta, ao prazer ambíguo de se sentir suspenso entre o perigo e a confiança. Nos sonhos de voo, pelo contrário, a sensação é de leveza, de soberania, de liberdade em relação às leis dadas, experiência que ele vincula tanto a estados corporais como a fantasias de grandeza. Nos sonhos de dentes que se soltam ou se quebram, Freud reencontra simbolismos ligados à castração, à angústia diante de perdas irreversíveis, à ameaça ao corpo próprio e à virilidade. São cenas diferentes, mas todas elas obedecem à mesma lógica: restos diurnos e sensações corporais se articulam a desejos e medos infantis recalcados para produzir imagens que se repetem de sujeito em sujeito com variações pessoais.

Para o clínico, essa parte da obra é valiosa exatamente porque funciona como uma espécie de clínica comentada dos sonhos. Quando um paciente conta, envergonhado, que sonhou estar nu na rua, ou que voltou para a escola sem saber a matéria, ou que enterrou a própria mãe, o leitor de Freud sabe que não se trata de uma curiosidade isolada. Sabe que está pisando em terreno conhecido e, ao mesmo tempo, singular. Os tipos de sonho descritos por Freud não são moldes em que se encaixa o conteúdo do analisando, são referencias que permitem reconhecer a estrutura subjacente: a realização de desejo sob censura, a presença de restos diurnos, o retorno de cenas infantis recalcadas, a negociação constante entre desejo e proibição. Trabalhar com essas coleções de sonhos é mostrar, na prática, como a teoria se encarna em exemplos concretos, como o inconsciente fala por fórmulas que se repetem e, ainda assim, adquirem um tom absolutamente único em cada história.

Ao reunir esses sonhos típicos na segunda metade do Capítulo V, Freud faz algo mais do que classificar fenômenos. Ele revela que o que há de mais íntimo em nós, o teatro noturno que acreditamos só nosso, é construído com peças que pertencem também a uma humanidade compartilhada. O sonho nunca é só meu, no sentido de que ele reutiliza temas, cenas e medos que atravessam gerações. E, no entanto, cada montagem é exclusiva, porque nenhum desejo inconsciente é exatamente igual ao de outro sujeito. Essa tensão entre o típico e o singular é o que torna essa parte de A interpretação dos sonhos tão apaixonante para quem ensina, para quem atende e para quem aceita colocar seus próprios sonhos em questão.

Referências

Freud, S. A interpretação dos sonhos.
Freud, S. Conferências introdutórias sobre psicanálise.

André Gasparini

Psicanalista e Hipnoterapeuta

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Centro Comercial Alphaville - Calçada das Anêmonas, 20 - Alphaville, Barueri - SP, 06453-005, Brasil

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