A Neurose na Obra de Freud

 

O Recalque como Mecanismo Fundamental

Aprofundar a neurose na obra de Freud é mergulhar no próprio coração da descoberta psicanalítica, pois foi a partir do sofrimento neurótico que Freud construiu os alicerces de sua teoria. A neurose, para ele, não é uma doença qualquer, mas sim uma estrutura clínica específica, uma forma particular de o sujeito se organizar diante do conflito psíquico. O mecanismo central aqui é o recalque, a operação pela qual o Eu tenta manter no inconsciente representações ligadas a uma moção pulsional que é sentida como perigosa ou incompatível.

No texto "Die Verdrängung" de 1915, Freud é cirúrgico ao definir sua essência:

"Ihr Wesen besteht lediglich darin, etwas vom Bewußtsein fernzuhalten und fernzuhalten. (...) Die Verdrängung ist keine einmalig erfolgende, sondern sie erfordert einen kontinuierlichen Kraftaufwand, dessen Aufhebung ein Gelingen des immer neu drängenden Einbruchs der verdrängten Vorstellung bedeuten würde."

"Sua essência consiste apenas em manter algo afastado da consciência e mantê-lo afastado. (...) O recalque não é um evento que ocorre uma única vez, mas sim requer um contínuo dispêndio de força, cuja cessação significaria o sucesso da invasão, sempre renovada, da representação recalcada."

Este trecho desfaz a ideia de que o recalque é como arquivar um documento e esquecê-lo; é um trabalho ativo e permanente. O Eu gasta energia para manter uma barreira contra o Isso, como segurar uma bola embaixo d'água, exigindo força constante, e qualquer relaxamento permite que ela emerja. Esse emergir é o retorno do recalcado, que se manifesta nos sonhos, atos falhos e, principalmente, nos sintomas. O sintoma é, portanto, um compromisso entre a pulsão que busca expressão e a defesa que a impede.

A Histeria e a Conversão no Corpo

Freud, desde seus primeiros trabalhos, distinguiu duas grandes formas de neurose de transferência: a histeria e a neurose obsessiva. Cada uma delas representa um destino diferente para o afeto e para a representação recalcados, e cada uma tem seus mecanismos de defesa característicos. Na histeria, o conflito psíquico é convertido em sintomas corporais. Uma representação insuportável é recalcada, mas o afeto a ela ligado é deslocado para o corpo, produzindo fenômenos como paralisias, anestesias, dores, distúrbios sensoriais.

No "Bruchstück einer Hysterie-Analyse", o caso Dora de 1905, Freud observa:

"Die hysterische Symptomatik zeigt uns, dass der Kranke eine somatische oder viszerale Innervation zur Darstellung von verdrängten Gedanken und Regungen verwendet. (...) Die Konversion kann eine partielle oder totale sein, sie kann den ganzen Betrag des Affektes in die körperliche Innervation umsetzen."

"A sintomatologia histérica nos mostra que o doente utiliza uma inervação somática ou visceral para a representação de pensamentos e moções recalcados. (...) A conversão pode ser parcial ou total, pode transformar toda a cota de afeto na inervação corporal."

A jovem Dora, por exemplo, apresentava afonia recorrente e tosse nervosa, e Freud interpreta que esses sintomas estavam ligados a fantasias sexuais inconscientes; a perda da voz expressava simbolicamente: "Não posso falar sobre meu desejo" ou "Para que falar, se ele não está aqui para me ouvir?" O corpo de Dora encenava o conflito, mostrando que o inconsciente tem uma profunda sabedoria do corpo, onde o órgão ou função afetado pelo sintoma tem uma relação simbólica com a fantasia recalcada. A paciente não inventa a dor, ela a sente de forma real, pois o afeto foi genuinamente transformado em sofrimento físico.

A Neurose Obsessiva e a Luta no Pensamento

Já na neurose obsessiva, o conflito não se somatiza, mas se intelectualiza; a luta defensiva ocorre no próprio campo do pensamento. O sujeito é atormentado por ideias que não deseja ter, as obsessões, e compelido a realizar atos que não deseja fazer, as compulsões, numa tentativa de neutralizar uma angústia insuportável, geralmente ligada a moções sádicas e agressivas.

Em "Weitere Bemerkungen über die Abwehr-Neuropsychosen" de 1896, Freud detalha:

"Bei der Zwangsneurose wird der unverträglichen Vorstellung dadurch ihre Affektbetonung entzogen, dass das Ich sich in Widerspruch zu ihr setzt, sie einer Isolierung unterwirft, oder den Affekt auf andere, aber minder intensive Vorstellungen verschiebt. Der Erfolg ist die Bewusstseinsunfähigkeit der Vorstellung, aber die Erhaltung des Affektes, der sich nun an andere Vorstellungen anheftet (Zwangsgedanken)."

"Na neurose obsessiva, a representação incompatível tem seu acento afetivo retirado na medida em que o Eu se coloca em contradição com ela, a submete a um isolamento, ou desloca o afeto para outras representações, porém menos intensas. O resultado é a incapacidade da representação de se tornar consciente, mas a preservação do afeto, que agora se fixa em outras representações (pensamentos obsessivos)."

Vários mecanismos entram em jogo na neurose obsessiva. O isolamento ocorre quando o pensamento perturbador é separado de seu contexto emocional e das conexões associativas normais, aparecendo na mente como um evento isolado, quase sem significado, mas insistente; o sujeito se lembra do fato, mas não do afeto que o acompanhava, como vergonha, raiva ou excitação. A anulação retroativa é o ato pelo qual o sujeito realiza um ritual com o propósito mágico de desfazer um outro ato ou pensamento anterior, como se ele nunca tivesse acontecido, uma tentativa de negar a realidade por meio da ação, como lavar as mãos obsessivamente para limpar uma culpa moral. A formação reativa se manifesta quando uma atitude ou traço de caráter é desenvolvido no sentido oposto à moção pulsional recalcada, como a meticulosidade e o excesso de ordem que encobrem desejos inconscientes de desordem e sujeira, ou a extrema doçura que esconde impulsos sádicos. O deslocamento, por fim, é a transferência do afeto de uma ideia importante e ameaçadora para outra ideia menor e mais banal, de modo que uma culpa enorme pode estar ligada a um pensamento aparentemente insignificante, como pisar na linha do chão.

O caso do Homem dos Ratos, Ernst Lanzer, é paradigmático da neurose obsessiva. Atormentado por pensamentos terríveis envolvendo uma tortura com ratos que poderia acontecer com seu pai e sua amada, ele criava rituais obsessivos complexos para neutralizar esses pensamentos. Freud demonstra como tais pensamentos e rituais eram formações de compromisso, expressando de forma disfarçada os desejos inconscientes de morte contra o pai, a ambivalência afetiva, e a fixação em fantasias sádico-anal. O paciente se defendia dos impulsos hostis, mas a própria defesa, os rituais, se tornava uma nova fonte de sofrimento.

O Conflito na Segunda Tópica: Eu, Isso e Supereu

Com a introdução da segunda tópica, Id, Ego e Superego, Freud refina a compreensão do conflito neurótico. A neurose não é mais apenas um conflito entre o consciente e o inconsciente, mas sim um conflito entre instâncias psíquicas.

No artigo "Neurose und Psychose" de 1924, ele sintetiza:

"Im Dienste des Überichs und der Realität ist das Ich in Konflikt mit dem Es geraten und dies ist der Sachverhalt bei allen Übertragungsneurosen."

"A serviço do Supereu e da realidade, o Eu entrou em conflito com o Isso, e este é o estado de coisas em todas as neuroses de transferência."

Esta formulação é brilhante: o Eu, pressionado pelas exigências pulsionais do Isso e pelas cobranças do Supereu, a internalização das proibições e ideais, e pela realidade, tenta se equilibrar. O sintoma é a solução de compromisso que esse Eu encontra, uma satisfação substituta que agrada, ainda que parcial e deformadamente, às três instâncias, mas que causa sofrimento. É uma espécie de paz armada, onde o Eu paga um preço alto por sua unidade.

Lacan, retomando Freud, dirá que o neurótico é aquele que se defende do desejo; o desejo, no neurótico, está sempre articulado com a interdição, o Complexo de Édipo e a castração. O sintoma é uma maneira de realizar o desejo, mas de forma que ele não seja reconhecido como tal.

A Estrutura do Conflito Internalizado

Assim, a neurose é a estrutura do conflito internalizado. O neurótico não rompe com a realidade, como o psicótico, e nem a desmente através de uma clivagem, como o perverso. Ele a mantém, mas às custas de um sofrimento interno: o sintoma, que é um corpo estranho dentro do próprio Eu, um monumento ao desejo recalcado. As duas grandes formas clínicas, a histeria e a neurose obsessiva, mostram as diferentes estratégias do Eu nessa luta: uma fala pelo corpo, a outra discute consigo mesma no pensamento. Em ambas, a verdade do sujeito está cifrada no sintoma, esperando para ser lida e interpretada no trabalho analítico, como Freud demonstrou ao longo de toda a sua obra, desde os Estudos sobre a histeria até os textos metapsicológicos finais.



André Gasparini
Psicanálise e Hipnoterapia
11 92096-9928
Calçada das Anêmonas, 20 - Centro Comercial de Alphaville - SP
Terapia em abordagem Psicanalítica de Freud e Lacan

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