A Perversão na Obra de Freud: O Desmentido e a Clivagem do Eu
A Especificidade da Estrutura Perversa
Se na neurose o sujeito recalca a representação insuportável e na psicose rompe com a realidade, a perversão apresenta uma terceira via, uma solução lógica distinta e igualmente complexa. Freud dedicou-se a este tema ao longo de sua obra, mas é no texto "Fetischismus" de 1927 que encontramos a formulação mais acabada sobre a estrutura perversa. A perversão não é, como se poderia pensar superficialmente, uma simples ausência de defesa ou um desvio moral, mas sim uma organização psíquica específica, com mecanismos próprios para lidar com o conflito entre pulsão, defesa e realidade. O texto começa com uma observação clínica importante:
"In den letzten Jahren hatte ich Gelegenheit, eine Anzahl von Männern, deren Objektwahl von einem Fetisch beherrscht war, analytisch zu studieren. Man braucht nicht zu erwarten, daß diese Personen des Fetisch wegen die Analyse aufgesucht hatten, denn der Fetisch wird wohl von seinen Anhängern als eine Abnormität erkannt, aber nur selten als ein Leidenssymptom empfunden; meist sind sie mit ihm recht zufrieden oder loben sogar die Erleichterungen, die er ihrem Liebesleben bietet. Der Fetisch spielte also in der Regel die Rolle eines Nebenbefundes."
"Nos últimos anos, tive oportunidade de estudar analiticamente uma série de homens cuja escolha de objeto era dominada por um fetiche. Não se deve esperar que essas pessoas tenham procurado a análise por causa do fetiche, pois o fetiche é reconhecido por seus adeptos como uma anormalidade, mas raramente é sentido como um sintoma de sofrimento; na maioria das vezes, eles estão bastante satisfeitos com ele ou até elogiam as facilidades que ele proporciona à sua vida amorosa. O fetiche desempenhava, via de regra, o papel de um achado secundário."
Este trecho inicial já é revelador: diferentemente do neurótico, que sofre com seus sintomas e busca análise por causa deles, o perverso não experimenta seu modo de funcionamento como fonte de sofrimento. O fetiche é vivido como uma solução, não como um problema. Esta observação clínica fundamental aponta para a diferença estrutural: enquanto a neurose é marcada pelo conflito e pelo sofrimento egodistônico, a perversão é egossintônica, integrada ao funcionamento do sujeito.
O Caso do "Glanz auf der Nase": A Lógica do Fetiche
Freud apresenta então um caso clínico exemplar, que se tornou paradigmático para a compreensão da formação do fetiche:
"Am merkwürdigsten erschien ein Fall, in dem ein junger Mann einen gewissen 'Glanz auf der Nase' zur fetischistischen Bedingung erhoben hatte. Das fand seine überraschende Aufklärung durch die Tatsache, daß der Patient eine englische Kinderstube gehabt hatte, dann aber nach Deutschland gekommen war, wo er seine Muttersprache fast vollkommen vergaß. Der aus den ersten Kinderzeiten stammende Fetisch war nicht deutsch, sondern englisch zu lesen, der 'Glanz auf der Nase' war eigentlich ein 'Blick auf die Nase' (glance = Blick), die Nase war also der Fetisch, dem er übrigens nach seinem Belieben jenes besondere Glanzlicht verlieh, das andere nicht wahrnehmen konnten."
"O mais notável pareceu um caso em que um jovem havia erigido um certo 'brilho no nariz' à condição fetichista. Isso encontrou sua surpreendente explicação no fato de que o paciente tivera uma infância inglesa, mas depois viera para a Alemanha, onde esqueceu quase completamente sua língua materna. O fetiche, oriundo dos primeiros tempos da infância, não devia ser lido em alemão, mas em inglês: o 'brilho no nariz' era na verdade um 'olhar para o nariz' (glance = olhar); o nariz era, portanto, o fetiche, ao qual ele, aliás, conferia a seu bel-prazer aquele brilho especial que outros não podiam perceber."
Este caso é brilhante em sua simplicidade e profundidade. O fetiche não é arbitrário: ele carrega uma história, uma linguagem, uma marca do tempo infantil. O "Glanz" (brilho) é um equívoco linguístico, uma tradução falsa que preserva, no entanto, o verdadeiro sentido: "glance" (olhar). O fetiche é, portanto, um monumento a um olhar infantil, um olhar que espreitava o corpo feminino em busca de algo que não encontrou. A análise revela que o fetiche não é apenas um objeto de excitação sexual, mas um símbolo complexo que condensa uma cena, um olhar e uma defesa.
O Desmentido (Verleugnung) como Mecanismo Específico
Freud então apresenta sua tese central: o fetiche é um substituto para o pênis materno, e sua formação envolve um mecanismo de defesa específico, diferente do recalque neurótico. É aqui que ele introduz a distinção terminológica crucial:
"Wenn ich nun mitteile, der Fetisch ist ein Penisersatz, so werde ich gewiß Enttäuschung hervorrufen. Ich beeile mich darum hinzuzufügen, nicht der Ersatz eines beliebigen, sondern eines bestimmten, ganz besonderen Penis, der in frühen Kinderjahren eine große Bedeutung hat, aber später verlorengeht. Das heißt: er sollte normalerweise aufgegeben werden, aber gerade der Fetisch ist dazu bestimmt, ihn vor dem Untergang zu behüten. Um es klarer zu sagen, der Fetisch ist der Ersatz für den Phallus des Weibes (der Mutter), an den das Knäblein geglaubt hat und auf den es — wir wissen warum — nicht verzichten will."
"Se eu comunicar agora que o fetiche é um substituto do pênis, certamente causarei decepção. Apresso-me, portanto, a acrescentar: não o substituto de um pênis qualquer, mas de um pênis determinado, muito especial, que tem grande importância na primeira infância, mas que posteriormente se perde. Isto é: ele deveria ser abandonado normalmente, mas justamente o fetiche está destinado a protegê-lo da perda. Para dizer mais claramente: o fetiche é o substituto do falo da mulher (da mãe), no qual o menino acreditou e ao qual — sabemos por quê — não quer renunciar."
A expressão "wir wissen warum" remete à ameaça de castração: se a mulher pode ser castrada, então o próprio pênis do menino está ameaçado. O fetiche é uma defesa contra essa ameaça insuportável. Mas qual é exatamente o mecanismo dessa defesa? Freud discute isso em uma passagem fundamental, onde diferencia seu conceito de "Verleugnung" (desmentido) do termo "Skotomisation" proposto por Laforgue:
"Der Hergang war also der, daß der Knabe sich geweigert hat, die Tatsache seiner Wahrnehmung, daß das Weib keinen Penis besitzt, zur Kenntnis zu nehmen. Nein, das kann nicht wahr sein, denn wenn das Weib kastriert ist, ist sein eigener Penisbesitz bedroht, und dagegen sträubt sich das Stück Narzißmus, mit dem die Natur vorsorglich gerade dieses Organ ausgestattet hat. (...) Will man in ihm das Schicksal der Vorstellung von dem des Affekts schärfer trennen, den Ausdruck 'Verdrängung' für den Affekt reservieren, so wäre für das Schicksal der Vorstellung 'Verleugnung' die richtige deutsche Bezeichnung. 'Skotomisation' scheint mir besonders ungeeignet, denn es weckt die Idee, als wäre die Wahrnehmung glatt weggewischt worden, so daß das Ergebnis dasselbe wäre, wie wenn ein Gesichtseindruck auf den blinden Fleck der Netzhaut fiele. Aber unsere Situation zeigt im Gegenteil, daß die Wahrnehmung geblieben ist und daß eine sehr energische Aktion unternommen wurde, ihre Verleugnung aufrechtzuhalten."
"O processo foi, portanto, que o menino se recusou a tomar conhecimento do fato de sua percepção de que a mulher não possui pênis. Não, isso não pode ser verdade, pois se a mulher é castrada, a posse de seu próprio pênis está ameaçada, e contra isso se rebela a parcela de narcisismo com que a natureza, precavidamente, dotou justamente esse órgão. (...) Se quisermos separar mais nitidamente, nele, o destino da representação do destino do afeto, reservando a expressão 'recalque' para o afeto, então 'desmentido' seria a designação alemã correta para o destino da representação. 'Escotomização' me parece particularmente inadequada, pois desperta a ideia de que a percepção teria sido simplesmente apagada, de modo que o resultado seria o mesmo que se uma impressão visual incidisse sobre o ponto cego da retina. Mas nossa situação mostra, ao contrário, que a percepção permaneceu e que uma ação muito enérgica foi empreendida para manter seu desmentido."
Esta distinção é absolutamente central para a teoria das estruturas clínicas. O desmentido não é um não ver, mas sim um ver e ao mesmo tempo recusar-se a admitir o que viu. A percepção da castração feminina não é apagada da consciência (como na forclusão psicótica) nem recalcada para o inconsciente (como na neurose), mas sim mantida na consciência e simultaneamente desmentida em seu significado ameaçador. O fetiche é o testemunho dessa operação paradoxal.
A Lógica do Compromisso e o "Stigma Indelebile"
Freud então descreve a natureza paradoxal da solução fetichista, que envolve uma coexistência de duas atitudes contraditórias:
"Es ist nicht richtig, daß das Kind sich nach seiner Beobachtung am Weibe den Glauben an den Phallus des Weibes unverändert gerettet hat. Es hat ihn bewahrt, aber auch aufgegeben; im Konflikt zwischen dem Gewicht der unerwünschten Wahrnehmung und der Stärke des Gegenwunsches ist es zu einem Kompromiß gekommen, wie es nur unter der Herrschaft der unbewußten Denkgesetze — der Primärvorgänge — möglich ist. Ja, das Weib hat im Psychischen dennoch einen Penis, aber dieser Penis ist nicht mehr dasselbe, das er früher war. Etwas anderes ist an seine Stelle getreten, ist sozusagen zu seinem Ersatz ernannt worden und ist nun der Erbe des Interesses, das sich dem früheren zugewendet hatte. Dies Interesse erfährt aber noch eine außerordentliche Steigerung, weil der Abscheu vor der Kastration sich in der Schaffung dieses Ersatzes ein Denkmal gesetzt hat. Als stigma indelebile der stattgehabten Verdrängung bleibt auch die Entfremdung gegen das wirkliche weibliche Genitale, die man bei keinem Fetischisten vermißt."
"Não é correto que a criança tenha preservado inalterada, após sua observação na mulher, a crença no falo da mulher. Ela o preservou, mas também o abandonou; no conflito entre o peso da percepção indesejada e a força do contra-desejo, chegou-se a um compromisso, como só é possível sob o domínio das leis do pensamento inconsciente — os processos primários. Sim, a mulher tem, psiquicamente, um pênis, mas este pênis não é mais o mesmo que era antes. Algo diferente tomou seu lugar, foi como que nomeado seu substituto e torna-se agora o herdeiro do interesse que antes se voltava para o pênis. Este interesse, porém, experimenta ainda uma extraordinária intensificação, porque o horror à castração erigiu um monumento para si mesmo na criação desse substituto. Como stigma indelebile do recalque ocorrido, permanece também a estranheza em relação ao genitale feminino real, que não falta em nenhum fetichista."
A expressão latina "stigma indelebile" (marca indelével) é poderosa: o fetiche carrega a marca da operação defensiva, e a aversão ao genitale feminino real é o outro lado da mesma moeda. O fetiche permite o desejo pela mulher, mas apenas na medida em que ela é investida de um atributo fálico que encobre sua falta real. O preço pago é a impossibilidade de se relacionar com a genitália feminina tal como ela é.
Sobre a gênese do fetiche, Freud oferece uma descrição quase cinematográfica do processo:
"Bei der Einsetzung des Fetisch scheint vielmehr ein Vorgang eingehalten zu werden, der an das Haltmachen der Erinnerung bei traumatischer Amnesie gemahnt. Auch hier bleibt das Interesse wie unterwegs stehen, wird etwa der letzte Eindruck vor dem unheimlichen, traumatischen, als Fetisch festgehalten. So verdankt der Fuß oder Schuh seine Bevorzugung als Fetisch — oder ein Stück derselben — dem Umstand, daß die Neugierde des Knaben von unten, von den Beinen her nach dem weiblichen Genitale gespäht hat; Pelz und Samt fixieren — wie längst vermutet wurde — den Anblick der Genitalbehaarung, auf den der ersehnte des weiblichen Gliedes hätte folgen sollen; die so häufig zum Fetisch erkorenen Wäschestücke halten den Moment der Entkleidung fest, den letzten, in dem man das Weib noch für phallisch halten durfte."
"Na instituição do fetiche, parece antes ser seguido um processo que lembra a parada da memória na amnésia traumática. Também aqui o interesse permanece como que parado no meio do caminho; é como se o último impressão antes da impressão insólita e traumática fosse retida como fetiche. Assim, o pé ou o sapato devem sua preferência como fetiche — ou uma parte deles — à circunstância de que a curiosidade do menino espiava de baixo, a partir das pernas, em direção ao genitale feminino; peles e veludo fixam — como há muito se suspeitava — a visão da pelugem genital, à qual deveria seguir-se a visão ansiada do membro feminino; as peças de roupa íntima, tão frequentemente eleitas como fetiche, fixam o momento da desnudação, o último em que ainda se podia considerar a mulher como fálica."
Um comentador contemporâneo, citado em análise recente, observa que o fetiche é essencialmente um "congelamento" da imagem, um fotograma parado no filme do desejo: "Everything depends on the 'cinematics' of the scene and its stopping point, for the fetish object is essentially nothing but a freeze-frame" . O olhar infantil que sobe pelas pernas da mulher em direção ao genitale é interrompido em seu percurso justamente antes do ponto traumático onde a falta seria revelada. O fetiche é esse ponto de parada, esse último frame antes do horror.
A Clivagem do Eu (Ichspaltung)
O conceito de desmentido implica uma consequência estrutural fundamental: a clivagem do eu. Freud desenvolverá mais explicitamente este conceito em textos posteriores, particularmente no "Abriss der Psychoanalyse" de 1938, mas sua lógica já está presente no texto de 1927. A clivagem significa que duas atitudes psíquicas incompatíveis coexistem no eu sem se anularem mutuamente: uma que reconhece a realidade da castração feminina, e outra que a desmente e mantém a crença no falo materno.
O fetiche é o testemunho dessa clivagem, o ponto de junção onde as duas correntes se encontram em uma formação de compromisso que não é um sintoma neurótico (pois não causa sofrimento) nem uma alucinação psicótica (pois não perde o contato com a realidade), mas sim uma espécie de "realidade paralela" que coexiste com a realidade compartilhada.
Freud conclui sua reflexão com uma observação que liga o fetichismo à questão mais ampla das estruturas clínicas:
"Der Kastrationsschreck beim Anblick des weiblichen Genitales bleibt wahrscheinlich keinem männlichen Wesen erspart. Warum die einen infolge dieses Eindruckes homosexuell werden, die anderen ihn durch die Schöpfung eines Fetisch abwehren und die übergroße Mehrzahl ihn überwindet, das wissen wir freilich nicht zu erklären. Möglich, daß wir unter der Anzahl der zusammenwirkenden Bedingungen diejenigen noch nicht kennen, welche für die seltenen pathologischen Ausgänge maßgebend sind; im übrigen müssen wir zufrieden sein, wenn wir erklären können, was geschehen ist, und dürfen die Aufgabe, zu erklären, warum etwas nicht geschehen ist, vorläufig von uns weisen."
"O terror da castração diante da visão do genitale feminino provavelmente não é poupado a nenhum ser masculino. Por que uns se tornam homossexuais em consequência dessa impressão, outros a repelem mediante a criação de um fetiche, e a grande maioria a supera, isso certamente não sabemos explicar. É possível que, entre o número de condições que atuam conjuntamente, ainda não conheçamos aquelas que são determinantes para os raros desfechos patológicos; de resto, devemos nos contentar em poder explicar o que aconteceu, e podemos, por enquanto, recusar a tarefa de explicar por que algo não aconteceu."
Esta passagem é importante por sua honestidade intelectual: Freud reconhece os limites da explicação psicanalítica. Sabemos descrever o mecanismo do fetichismo quando ele ocorre, mas não podemos explicar por que um sujeito específico segue o caminho da perversão, outro o da neurose, outro o da psicose, e a maioria simplesmente "supera" o complexo de castração sem desenvolver qualquer estrutura patológica. A etiologia das estruturas clínicas permanece, em última instância, um enigma.
A Posição do Perverso Diante da Castração
A perversão, na obra freudiana, revela-se assim como uma estrutura tão complexa quanto a neurose, com seu mecanismo específico (o desmentido), sua formação característica (o fetiche) e sua consequência estrutural (a clivagem do eu). O perverso não ignora a castração, como o psicótico, nem a internaliza em um conflito defensivo, como o neurótico. Ele a reconhece e ao mesmo tempo a recusa, criando um objeto que testemunha essa contradição sem resolvê-la.
O fetiche é esse objeto paradoxal: ele é o "monumento" ao horror da castração e simultaneamente o "escudo" contra esse horror. Ele permite que o perverso se relacione com a mulher, mas apenas sob a condição de que ela seja investida de um atributo fálico que encobre sua falta. A aversão ao genitale feminino real é o preço pago por essa solução.
A diferença fundamental em relação à neurose pode ser assim resumida: enquanto o neurótico recalca a representação da castração e a faz retornar no sintoma, o perverso desmente a percepção da castração e a fixa no fetiche. O neurótico esquece, mas o sintoma lembra por ele; o perverso vê, mas o fetiche desmente o que ele viu. Em ambos os casos, a castração é o ponto nodal em torno do qual a estrutura se organiza, mas a solução encontrada por cada sujeito segue uma lógica diferente.
A originalidade da contribuição freudiana está em mostrar que a perversão não é uma simples "falta de defesa" ou um "desvio moral", mas sim uma organização psíquica legítima, com sua própria economia, seus próprios mecanismos e sua própria lógica. O perverso não é alguém que "escolheu" ser perverso, mas sim alguém que encontrou, diante do insolúvel conflito entre o desejo e a castração, uma solução possível: desmentir a falta, fixar um objeto que a substitua, e assim preservar, a um só tempo, o desejo e a defesa contra seu preço mais temido.
André Gasparini
Psicanálise e Hipnoterapia
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Terapia em abordagem Psicanalítica de Freud e Lacan
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