Quando a necessidade de ser a melhor se transforma em sofrimento

 


Eencontrei muitas pessoas extremamente competentes, disciplinadas e admiradas em seus ambientes. No entanto, por trás desse desempenho elevado, frequentemente existe uma tensão silenciosa. Uma sensação de que nunca é suficiente.

Certa vez acompanhei uma paciente que trazia exatamente essa questão. Ela era reconhecida em praticamente todos os lugares onde estava. No trabalho era considerada referência técnica. Na família era a pessoa que resolvia problemas. Entre amigos, a mais organizada e confiável. À primeira vista, parecia uma trajetória de sucesso.

O sofrimento apareceu quando ela começou a perceber que não conseguia descansar emocionalmente. Em qualquer ambiente surgia uma pressão interna para ser a melhor. Se havia uma reunião, ela precisava apresentar a melhor ideia. Se participava de um curso, precisava ter o melhor desempenho. Até em situações sociais simples, como um jantar entre amigos, ela sentia a necessidade de se destacar de alguma maneira.

Com o tempo, essa exigência começou a produzir ansiedade constante. Pequenos erros eram vividos como falhas graves. Um comentário crítico no trabalho podia ocupar seus pensamentos por dias.

Nas primeiras conversas, ela dizia algo que se repetia com frequência: “Se eu não for a melhor, alguém vai perceber que eu não sou tão boa assim”.

Essa frase abriu um caminho importante no processo terapêutico.

Aos poucos fomos reconstruindo algumas experiências de sua história. Durante a infância, o reconhecimento que recebia em casa estava muito ligado ao desempenho. Quando tinha boas notas, era elogiada. Quando se destacava em atividades escolares, recebia atenção e orgulho da família.

Não havia uma intenção negativa nesse ambiente. Pelo contrário, os pais estavam orgulhosos do talento da filha. Porém, de forma sutil, ela aprendeu uma associação muito forte: ser valorizada significava se destacar.

Com o tempo, essa lógica se tornou uma regra interna rígida. Em vez de viver as situações de forma espontânea, ela sempre avaliava se estava performando bem o suficiente.

Nas sessões começamos a trabalhar algo essencial: separar valor pessoal de desempenho.

Um exercício prático que utilizamos foi observar situações simples do cotidiano. Por exemplo, ela relatou um encontro com amigos em que não foi a pessoa mais interessante da conversa. Antigamente isso geraria incômodo e autocrítica. Durante o processo terapêutico, passamos a observar o que realmente acontecia naquela situação.

Ela percebeu algo curioso. Mesmo sem se destacar, as pessoas continuavam interessadas em sua presença. A relação não dependia de performance.

Esse tipo de experiência foi abrindo espaço para uma mudança importante. O reconhecimento deixou de ser o único parâmetro de valor.

Gradualmente, a necessidade de provar excelência em todos os ambientes começou a diminuir. O foco passou a ser participação, presença e autenticidade.

Esse tipo de transformação não acontece de forma rápida. Trata-se de revisar crenças profundas que foram construídas ao longo de muitos anos. No entanto, quando o sujeito consegue flexibilizar essa exigência interna, algo muito valioso aparece: a possibilidade de existir sem a obrigação constante de provar algo.

O desempenho continua existindo, mas já não ocupa o lugar de sustentação do próprio valor.

Esse movimento costuma trazer um efeito importante na vida cotidiana. As relações ficam mais leves, o trabalho se torna mais saudável e o sujeito passa a tolerar melhor seus próprios limites.

Em muitos casos, a pessoa descobre algo que parecia quase impossível antes: é possível ser reconhecida sem precisar ser a melhor o tempo todo.

André Gasparini
Psicanálise e Hipnoterapia

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